Quarta-feira, Maio 30, 2012

Receita para viver um grande amor


"Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?"

Vinicius de Moraes


Terça-feira, Maio 22, 2012

Papas de aveia



Os anos passam pela cozinha e as papas de aveia. que em tempos eram prato saudável e essencial ao crescimento, ganham um sabor diferente. Mantém-se o leite, o açúcar, até mesmo a canela, mas a aveia desgastou-se no boião. O boião que foi sendo aberto e fechado, sujeito às colheres e às mãos, às variações de temperatura da cozinha, às correntes de ar. E ao pó.
Desligo o fogão. Faço mais uma papa e sento-me. À espera que, uma vez que seja, alguém perceba que, de vez em quando, preciso que me dêem um bocadinho da papa à boca. 


Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

Juntar frigideiras e panelas

Houve alturas em que na minha cozinha estavam tachos a mais. Demasiado barulho, cheiros e sabores que não tinham harmonia. Mudei-me para outra e comecei a cozinhar sozinha. E, por algum tempo, soube bem. Muito bem. Diria mesmo que essencial. Mas cozinhar apenas para um não faz sentido e isso só percebi quando à mesa se começaram a juntar dois pratos. Com saborosa regularidade. “Cozinhar é um ato de amor”, escreveu Mia Couto e leu-se por aqui um dia. E misturar a única frigideira que sobreviveu à minha cozinha vazia, com um trem de panelas que tem também muito amor para levar ao lume, nunca me fez tanto sentido. Uma nova cozinha aguarda-nos. E eu volto a ter vontade de cozinhar. Amor.


Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

Massa caseira quebrada

Não há segredos: tudo se resume a horas a amassar e eu sei disso à partida, muito antes de sequer acender a luz da cozinha e vestir o velhinho avental. Deparo-me mais uma vez num duelo, frente a frente com a bancada onde perduram pedaços de massas antigas que foram ficando ressequidas com o tempo, mas que nenhum dos meus esfregões consegue limpar. Sei que nunca terei uma bancada imaculada, mas também não duvido dos belíssimos petiscos a que ali ainda darei sabor.

Despejo a farinha e deixo-a cair como chuva à minha frente. O dia lá fora também não é de sol. Junto-lhe a água, que deixo escorrer num pequeno fio apenas para ouvir aquele som que me faz sempre fechar os olhos e inspirar fundo. Por fim, retiro a manteiga do frigorífico e faço o que posso para misturar a sua consistência rija. Amasso, amasso, amasso. Vejo os minutos, que parecem horas, a passarem lentamente. E eu simplesmente deixo-me ficar a amassar em silêncio, socando as angústias eternamente guardadas no pacote da farinha. Não há outra forma de o fazer. E eu, que ainda achava que sim, volto ao velho silêncio que há muito não tornava tão ruidosos os ponteiros do meu relógio da vida.

Ponho as mãos naquela mistura crua e amassada que se cola à minha pele como se dela fizesse parte, sabendo que, na realidade, nunca deixou de fazer. Também sei que, por mais que amasse, ela nunca sairá quebrada. Nunca saiu. Mas mais uma vez deixo-me ficar exausta até chegar a esta conclusão.

E desligo a luz para descansar, sem conseguir lavar o balcão.

Quarta-feira, Novembro 23, 2011

Talhadas de melancia


É uma fruta de uma simplicidade tão grande, que se torna complexa. Que nos refresca todos os sentidos, que nos aquece os cantos da boca que não se cansa de a trincar repetidamente, com toda a urgência mas sem a ansiedade de outros frutos de gula. Leve para o estômago, tem também activos poderes nas questões de circulação no coração. É sumarenta, com aquele tipo de sumo que nos escorre pelo queixo e se cola à pele de uma forma tão natural, mas que dificilmente de lá sairá. E eu, que descobri finalmente as maravilhas de se andar lambuzada de melancia, não tenciono usar o guardanapo.

Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Caril de amor

"Ela vale tudo para mim. Tornou-se na razao da minha vida. Vou casar por amor"

O caril, de uma casta mais baixa de ingredientes que a da sua amada, sorria enquanto me contava isto com todo o seu entusiasmo. Nao havia pitada de picante nas suas palavras. Mas deixou-me a alma a arder.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.

Prometo a mim mesma.

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Salada de folhas renascidas

"AHORA me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.

Yo voy a cerrar los ojos

Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.

Una es el amor sin fin.

Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.

Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.

En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.

La quinta cosa son tus ojos,
Amor mío, bienamado,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.

Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.

Ahora si quieren se vayan.

He vivido tanto que un día
tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra:
mi corazón fue interminable.

Pero porque pido silencio
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.

Sucede que soy y que sigo.

No será, pues, sino que adentro
de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen
la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas
la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.

Se trata de que tanto he vivido
que quiero vivir otro tanto.

Nunca me sentí tan sonoro,
nunca he tenido tantos besos.

Ahora, como siempre, es temprano.
Vuela la luz con sus abejas.

Déjenme solo con el día.
Pido permiso para nacer."

de Pablo Neruda