Sexta-feira, Março 01, 2013

Segunda-feira, Fevereiro 04, 2013

Polvo no forno

O temporizador apita, dando por findas as longas horas de cozedura em lume brando. Os polvos mexem-se lentamente dentro do tabuleiro. Entrelaçam os tentáculos como se não o tivessem ouvido e deixam-se embalar naquele caldo de ternura em que estão envoltos. Pela porta do forno vêem-se os primeiros raios de luz que batem na janela da cozinha. Mas eles não querem sair daquele calor que os torna mais tenros. 

Rebolam para um lado do tabuleiro, depois para o outro. As ventosas da vontade prendem-nos e eles gostam dessa sensação. A posição nem sempre é a mais confortável, mas nenhum deles quer saber. Aquele calor apura-os. Por vezes a malagueta que ficou a boiar no caldo de ternura desde a hora em que foram postos ao lume larga mais um pouco do seu aroma picante. E mexem-se mais um pouco no tabuleiro. Por vezes é simplesmente na inércia dos sabores semi-adormecidos que se deixam ficar. E é naqueles momentos, em que o silêncio da cozinha só é quebrado pelas pitadas matinais de beijos sonolentos com tentáculos entrelaçados, que os polvos sentem que lá fora todos os refogados do mundo pararam. E é com muito esforço que se largam. Mesmo sabendo que depois de enfrentarem os pratos do dia, é ali que se voltarão a encontrar novamente.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2013

Sopa de inquietação


Há sopas que se cozinham uma vida inteira em lume brando. Esta é uma delas. A inquietação não é um ingrediente que se possa cozinhar com as regras de um livro de receitas. Não há fórmulas mágicas. Nem há temporizadores no mundo que consigam apitar o momento em que ela está pronta a sair do tacho.  

Há quem a ache indigesta. Eu acho-a essencial. Mesmo quando me deixa o estomago às voltas. Mesmo quando o meu peito parece um campo de batalha. Porque é ela, com toda a incoerência que isto possa ter. que também dá mais cor ao meu fogão. Que me faz querer cozinhar mais longe. Que me faz sorrir a cada nova colherada. Que me traz esta calma inquieta. E a sopa sabe definitivamente melhor assim.


Terça-feira, Dezembro 18, 2012

Receita de amor



Não há receitas milagrosas para isto do amor. É certo que há ingredientes que ajudam. Mas depende sempre do tempero de cada um e da chama em que o cozinham. Por aqui, faz parte do menu: 


Terça-feira, Novembro 27, 2012

Sexta-feira, Novembro 23, 2012

Doce de solidão

Em português do Brasil todos os doces parecem saber melhor. Mesmo os de sabores amargos.


Terça-feira, Novembro 13, 2012

Comida de rua


Há alturas em que somo brindados por palavras inesperadas. Com cheiro a comida de rua, mas com a clareza e calma do menu mais gourmet de sempre:

Ele - “Isto está difícil, não é?”
Eu - “Pois, não está fácil, não.”
Ele - “Mas olhe, há que ter força e não desistir.  Ele (apontado para cima) há-de ajudar-nos a todos”
Eu -  (Sorriso)
Ele – (Sorriso e um encolher de ombros)
Eu - Boa sorte para si! Desejo-lhe um bom domingo!
Ele - “Para si também, menina!”

Foram estas as palavras que troquei com um sem-abrigo que pedia no trânsito e olhou para mim num daqueles momentos em que a ordenação de ideias nos faz fechar os olhos para nos percebermos melhor. 
E, por momentos, tudo se tornou mais claro.


Segunda-feira, Novembro 12, 2012

Salsicha alemã



Dizem que é rija e pouco dada a variações de tempero. Embora esteja diariamente nos menus  de todas as casas nacionais, hoje é servida à mesa da Nação. Ao lado do Coelho à Caçador que, se não se põe a pau, acaba em cabidela. Independentemente de toda a água que se tem posto na fervura, a ambos é dedicado este vídeo tinto (de luto), envelhecido em cascos de muito trabalho e aromatizado com o desespero de quem já mal consegue chegar à mesa… 
Para saborear com toda a calma, sob risco de indigestão extrema.