sexta-feira, dezembro 19, 2014
quarta-feira, dezembro 17, 2014
Gelado de azedume
Há quem tenha tudo para saber a chocolate, mas opte pelo
azedume como aroma de vida. Quem tenha um frigorífico com todas as condições
para sustentar uma refrigeração saudável, mas opte por manter a porta aberta
deliberadamente só para se poder queixar de um ligeiro derretimento que torna a culinária da
vida numa receita muito complicada. Quem não perceba que é feio queixar-se a
toda a hora sem reais motivos para o fazer, quem prefira a vitimização em vez da acção, quem não perceba que
as trincas violentas fazem parte do percurso, que nunca poderia ser feito
apenas de lambidelas suaves. E que o topping depende de cada um de nós. Porque não
há ninguém que possa fazer mais pelos sabores do nosso gelado do que nós próprios.
terça-feira, dezembro 16, 2014
Bolo da Amizade
O famoso bolo da amizade (ou bolo das Carmelitas) podia resumir-se em duas palavras: dedicação e partilha. A massa é passada de amigo para amigo, como sinal de desejo de saúde e sorte ao próximo. E depois a sua confecção tanto pode ser encarada como divertida ou aborrecida. Demora, é certo. Mais concretamente, são 10 dias com a mão na massa, sem se poder usar nem a batedeira, nem o frigorífico para acelerar o processo. Mas haverá alguma amizade que se constrói sem esse bem tão precioso chamado tempo?
Tenho passado uma boa parte da minha vida dedicada a esta receita. A amar aqueles que escolhi ter na minha vida, para lá da herança familiar. Se a receita original das Carmelitas incluía nozes, passas, maçã, canela e demais bocadinhos coloridos adicionados à massa, eu diria que a minha está repleta de cubinhos perfeitos e imperfeitos de aceitação, entrega, gargalhadas e intimidade. Cubinhos que me fazem sentir cheia de muito. E que cada vez menos dispenso conforme os anos vão passando.
Encontrei estas fotos tiradas há uns bons anos numa noite entre os tachos, nas águas furtadas mais acolhedoras de Campo de Ourique. Exemplos de fatias de um bolo que por mais que se coma nunca fica reduzido a migalhas. Fatias que, embora hoje num cenário diferente, permanecem tão doces quanto naquela altura. Os anos passam e o bolo continua a crescer. Porque não há melhor fermento do que a amizade. E isso eu tenho a sorte de poder comprovar.
segunda-feira, dezembro 15, 2014
Carne vs vegetais
Ninguém que realmente goste de comer carne passa para o lado vegetariano da vida de ânimo leve. A decisão custa, mas quando os prós e contras chegam à balança, os resultados dão que pensar.
A carne sai cara e muitas vezes nem sequer dá à arte de a cozinhar a sua merecida dignidade. Quando consumida durante demasiados anos seguidos, a conta final pode tornar intolerável qualquer tentativa de gestão culinária da vida. Mas sabe bem e chega mesmo a ser viciante.
Por mais que a saúde reclame há sempre espaço no estomago para mais um bocadinho, mesmo quando os acompanhamentos mais indigestos insistem em provocar azia. Não importa que tenha de ser cozinhada a correr e que na maioria das vezes a tenhamos de comer quase em sangue. Quando se gosta, gosta. E a capacidade de a consumir, ora bem, ora mal passada, parece inesgotável. Até um dia.
Por mais que a saúde reclame há sempre espaço no estomago para mais um bocadinho, mesmo quando os acompanhamentos mais indigestos insistem em provocar azia. Não importa que tenha de ser cozinhada a correr e que na maioria das vezes a tenhamos de comer quase em sangue. Quando se gosta, gosta. E a capacidade de a consumir, ora bem, ora mal passada, parece inesgotável. Até um dia.
E esse dia chegou. A perspectiva de uma gestão mais digna da cozinha ditou grande parte da decisão. A necessidade de desintoxicação também. A saúde agradece, a carteira também. A língua, essa já consegue estalar ao experimentar novos sabores. Sempre teve essa capacidade. O estomago adapta-se, entusiasma-se, aprende a comer com calma, sem se sentir culpado por isso. Mas a verdade é que quem gosta de carne, gostará sempre. E de uma forma ou de outra ela vai estar sempre presente no meu menu. Mesmo que já não seja o prato principal.
sábado, dezembro 13, 2014
quinta-feira, dezembro 11, 2014
terça-feira, janeiro 21, 2014
Sopa de inquietação
Há sopas que se cozinham uma vida inteira em lume brando. Esta é uma delas. A inquietação não é um ingrediente que se possa cozinhar com as regras de um livro de receitas. Não há fórmulas mágicas. Nem há temporizadores no mundo que consigam apitar o momento em que ela está pronta a sair do tacho.
Há quem a ache indigesta. Eu acho-a essencial. Mesmo quando me deixa o estomago às voltas. Mesmo quando o meu peito parece um campo de batalha. Porque é ela, com toda a incoerência que isto possa ter. que também dá mais cor ao meu fogão. Que me faz querer cozinhar mais longe. Que me faz sorrir a cada nova colherada. Que me traz esta calma inquieta. E a sopa sabe definitivamente melhor assim.
segunda-feira, dezembro 23, 2013
quarta-feira, agosto 14, 2013
Franguinho à la BDSM
Quem achava que a trilogia das “Cinquenta Sombras de Grey”
era apenas uma bela malagueta para saborear, em nada prejudicial para o estômago,
teve esta semana um alerta. Ao que parece o livro que tem apimentado as
cozinhas de casais um pouco por todo o mundo e tem deixado as adolescentes
cheias de vontade de viverem um romance assim faz um apelo claro à permissão da
violência psicológica dentro da relação. E quanto a isto não há mel que possa
adoçar a análise da equipa de investigação. Espreitem aqui para saberem um bocadinho mais sobre isto.
terça-feira, agosto 13, 2013
Gula pornográfica vs gula real
Sempre achei que a culinária era uma metáfora perfeita para
tudo na vida. Até mesmo para explicar a diferença entre pornografia e sexo na
vida real. Ora deleitem-se lá com este pitéu:
sexta-feira, agosto 09, 2013
Ketchup?
Quem nunca levou com uma bisnagada não sabe quão
perigosamente deliciosa pode ser esta brincadeira. Consta que em Lisboa está a decorrer uma
batalha secreta, onde todos podemos revelar o bocadinho de Dexter que há em nós. Com assassinos,
cúmplices e vítimas gastronómicas. Mas sem riscos de envenenamentos ou paragens de digestão. Até porque a regra número um é ter uma pitada de bom-humor e sensatez qb. O resultado, asseguro-vos, tem pouco de sangrento. Sem direito a ketchup ou a carne ensanguentada.
Hoje acabei por ser morta à porta da cozinha
com um esguicho certeiro. Daqueles que nos fazem cair para o lado… de tanto rir.
E soube-me bem. Porque nem tudo na culinária da vida deve ser levado a sério.
quarta-feira, março 27, 2013
sexta-feira, março 01, 2013
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Polvo no forno
O temporizador apita, dando
por findas as longas horas de cozedura em lume brando. Os polvos mexem-se
lentamente dentro do tabuleiro. Entrelaçam os tentáculos como se não o tivessem
ouvido e deixam-se embalar naquele caldo de ternura em que estão envoltos. Pela
porta do forno vêem-se os primeiros raios de luz que batem na janela da
cozinha. Mas eles não querem sair daquele calor que os torna mais tenros.
Rebolam para um lado do tabuleiro, depois para o outro. As ventosas da vontade prendem-nos e eles gostam dessa sensação. A posição nem sempre é a mais confortável, mas nenhum deles quer saber. Aquele calor apura-os. Por vezes a malagueta que ficou a boiar no caldo de ternura desde a hora em que foram postos ao lume larga mais um pouco do seu aroma picante. E mexem-se mais um pouco no tabuleiro. Por vezes é simplesmente na inércia dos sabores semi-adormecidos que se deixam ficar. E é naqueles momentos, em que o silêncio da cozinha só é quebrado pelas pitadas matinais de beijos sonolentos com tentáculos entrelaçados, que os polvos sentem que lá fora todos os refogados do mundo pararam. E é com muito esforço que se largam. Mesmo sabendo que depois de enfrentarem os pratos do dia, é ali que se voltarão a encontrar novamente.
Rebolam para um lado do tabuleiro, depois para o outro. As ventosas da vontade prendem-nos e eles gostam dessa sensação. A posição nem sempre é a mais confortável, mas nenhum deles quer saber. Aquele calor apura-os. Por vezes a malagueta que ficou a boiar no caldo de ternura desde a hora em que foram postos ao lume larga mais um pouco do seu aroma picante. E mexem-se mais um pouco no tabuleiro. Por vezes é simplesmente na inércia dos sabores semi-adormecidos que se deixam ficar. E é naqueles momentos, em que o silêncio da cozinha só é quebrado pelas pitadas matinais de beijos sonolentos com tentáculos entrelaçados, que os polvos sentem que lá fora todos os refogados do mundo pararam. E é com muito esforço que se largam. Mesmo sabendo que depois de enfrentarem os pratos do dia, é ali que se voltarão a encontrar novamente.
quarta-feira, janeiro 30, 2013
terça-feira, dezembro 18, 2012
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