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terça-feira, janeiro 21, 2014

Sopa de inquietação


Há sopas que se cozinham uma vida inteira em lume brando. Esta é uma delas. A inquietação não é um ingrediente que se possa cozinhar com as regras de um livro de receitas. Não há fórmulas mágicas. Nem há temporizadores no mundo que consigam apitar o momento em que ela está pronta a sair do tacho.  

Há quem a ache indigesta. Eu acho-a essencial. Mesmo quando me deixa o estomago às voltas. Mesmo quando o meu peito parece um campo de batalha. Porque é ela, com toda a incoerência que isto possa ter. que também dá mais cor ao meu fogão. Que me faz querer cozinhar mais longe. Que me faz sorrir a cada nova colherada. Que me traz esta calma inquieta. E a sopa sabe definitivamente melhor assim.


quarta-feira, dezembro 02, 2009

O (real) prazer de cozinhar

Nunca uma cozinheira poderá esquecer o momento em que abre a porta da cozinha disposta a cozinhar. A verdadeiramente cozinhar. Sabendo à partida dos riscos de fugas de gás. Do lume que poderá acender rápido demais e queimar a mão que carrega o fósforo. Dos ingredientes que, no fim, poderão simplesmente não fazer sentido juntos.

Todos nos lembramos de como é cozinhar um prato sem a expectativa de conseguir atingir uma iguaria no fim. Só pelo prazer de ali estar. De misturar no tacho as cores, as texturas, os sabores, os cheiros… e ver crescer algo novo. A cada minuto. Mexer, hesitar, juntar mais de uma qualquer coisa escondida anteriormente num frasco, levar até ao fim a agradável estranheza de saborear a evolução de um prato que, inevitavelmente, vai ver a sua confecção terminada um dia. E isso não é mau, é apenas a realidade.
É talvez esta sinceridade da cozinha que me faz apaixonar pelos tachos. Não sei se algum dia cozinharei a pensar que no fim vou ter a travessa mais gourmet na minha mesa. Talvez. Mas, até lá, quero apenas sentir esta honestidade imensa de experimentar a força do lume sem ter vontade de o desligar.