Há quem tenha tudo para saber a chocolate, mas opte pelo
azedume como aroma de vida. Quem tenha um frigorífico com todas as condições
para sustentar uma refrigeração saudável, mas opte por manter a porta aberta
deliberadamente só para se poder queixar de um ligeiro derretimento que torna a culinária da
vida numa receita muito complicada. Quem não perceba que é feio queixar-se a
toda a hora sem reais motivos para o fazer, quem prefira a vitimização em vez da acção, quem não perceba que
as trincas violentas fazem parte do percurso, que nunca poderia ser feito
apenas de lambidelas suaves. E que o topping depende de cada um de nós. Porque não
há ninguém que possa fazer mais pelos sabores do nosso gelado do que nós próprios.
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quarta-feira, dezembro 17, 2014
terça-feira, janeiro 21, 2014
Sopa de inquietação
Há sopas que se cozinham uma vida inteira em lume brando. Esta é uma delas. A inquietação não é um ingrediente que se possa cozinhar com as regras de um livro de receitas. Não há fórmulas mágicas. Nem há temporizadores no mundo que consigam apitar o momento em que ela está pronta a sair do tacho.
Há quem a ache indigesta. Eu acho-a essencial. Mesmo quando me deixa o estomago às voltas. Mesmo quando o meu peito parece um campo de batalha. Porque é ela, com toda a incoerência que isto possa ter. que também dá mais cor ao meu fogão. Que me faz querer cozinhar mais longe. Que me faz sorrir a cada nova colherada. Que me traz esta calma inquieta. E a sopa sabe definitivamente melhor assim.
sexta-feira, agosto 09, 2013
Ketchup?
Quem nunca levou com uma bisnagada não sabe quão
perigosamente deliciosa pode ser esta brincadeira. Consta que em Lisboa está a decorrer uma
batalha secreta, onde todos podemos revelar o bocadinho de Dexter que há em nós. Com assassinos,
cúmplices e vítimas gastronómicas. Mas sem riscos de envenenamentos ou paragens de digestão. Até porque a regra número um é ter uma pitada de bom-humor e sensatez qb. O resultado, asseguro-vos, tem pouco de sangrento. Sem direito a ketchup ou a carne ensanguentada.
Hoje acabei por ser morta à porta da cozinha
com um esguicho certeiro. Daqueles que nos fazem cair para o lado… de tanto rir.
E soube-me bem. Porque nem tudo na culinária da vida deve ser levado a sério.
quarta-feira, março 27, 2013
segunda-feira, novembro 12, 2012
Salsicha alemã
Dizem que é rija e pouco dada a variações de tempero. Embora
esteja diariamente nos menus de todas as
casas nacionais, hoje é servida à mesa da Nação. Ao lado do Coelho à Caçador
que, se não se põe a pau, acaba em cabidela. Independentemente de toda a água que se tem posto na fervura, a ambos é dedicado este vídeo tinto (de luto), envelhecido em cascos de muito trabalho e aromatizado com o desespero de quem já mal consegue chegar à mesa…
Para saborear com toda a calma, sob risco de indigestão extrema.
segunda-feira, setembro 24, 2012
segunda-feira, setembro 10, 2012
terça-feira, agosto 14, 2012
JB Reserva 15 anos
Olho para a garrafa e parece-me um néctar divino, enviado pelos deuses directamente
para a bancada da cozinha. Nunca fui fã de whisky, mas descubro-lhe o potencial
numa noite em que tudo está tingido de cinzento. Consta que é um JB Reserva 15
anos. Os apreciadores dizem que é bom e eu, ao bebe-lo pela primeira vez, tenho de admitir
que o gosto me surpreende. Sinto-o a queimar-me as gengivas e as bochechas.
Deixo-o inundar a minha boca até já não arder e ficar simplesmente dormente.
Aquele gosto intenso torna-se suave. Assim como a terrível dor de dentes que
há dias sobrevivia a doses mais do que recomendadas de analgésico.
Nunca pensei recorrer aos 40% de álcool de um whisky com fins terapêuticos para o corpo. Para a alma. talvez. Mas o que é certo é que fiquei fã de JB. E por fim
consegui dormir.
quinta-feira, agosto 09, 2012
quarta-feira, julho 25, 2012
terça-feira, maio 22, 2012
Papas de aveia
Os anos passam pela cozinha e as papas de aveia. que em
tempos eram prato saudável e essencial ao crescimento, ganham um sabor
diferente. Mantém-se o leite, o açúcar, até mesmo a canela, mas a aveia
desgastou-se no boião. O boião que foi sendo aberto e fechado, sujeito às
colheres e às mãos, às variações de temperatura da cozinha, às correntes de ar.
E ao pó.
Desligo o fogão. Faço mais uma papa e sento-me. À espera que,
uma vez que seja, alguém perceba que, de vez em quando, preciso que me dêem um
bocadinho da papa à boca.
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
sexta-feira, novembro 25, 2011
Massa caseira quebrada
Não há segredos: tudo se resume a horas a amassar e eu sei disso à partida, muito antes de sequer acender a luz da cozinha e vestir o velhinho avental. Deparo-me mais uma vez num duelo, frente a frente com a bancada onde perduram pedaços de massas antigas que foram ficando ressequidas com o tempo, mas que nenhum dos meus esfregões consegue limpar. Sei que nunca terei uma bancada imaculada, mas também não duvido dos belíssimos petiscos a que ali ainda darei sabor.
Despejo a farinha e deixo-a cair como chuva à minha frente. O dia lá fora também não é de sol. Junto-lhe a água, que deixo escorrer num pequeno fio apenas para ouvir aquele som que me faz sempre fechar os olhos e inspirar fundo. Por fim, retiro a manteiga do frigorífico e faço o que posso para misturar a sua consistência rija. Amasso, amasso, amasso. Vejo os minutos, que parecem horas, a passarem lentamente. E eu simplesmente deixo-me ficar a amassar em silêncio, socando as angústias eternamente guardadas no pacote da farinha. Não há outra forma de o fazer. E eu, que ainda achava que sim, volto ao velho silêncio que há muito não tornava tão ruidosos os ponteiros do meu relógio da vida.
Ponho as mãos naquela mistura crua e amassada que se cola à minha pele como se dela fizesse parte, sabendo que, na realidade, nunca deixou de fazer. Também sei que, por mais que amasse, ela nunca sairá quebrada. Nunca saiu. Mas mais uma vez deixo-me ficar exausta até chegar a esta conclusão.
Despejo a farinha e deixo-a cair como chuva à minha frente. O dia lá fora também não é de sol. Junto-lhe a água, que deixo escorrer num pequeno fio apenas para ouvir aquele som que me faz sempre fechar os olhos e inspirar fundo. Por fim, retiro a manteiga do frigorífico e faço o que posso para misturar a sua consistência rija. Amasso, amasso, amasso. Vejo os minutos, que parecem horas, a passarem lentamente. E eu simplesmente deixo-me ficar a amassar em silêncio, socando as angústias eternamente guardadas no pacote da farinha. Não há outra forma de o fazer. E eu, que ainda achava que sim, volto ao velho silêncio que há muito não tornava tão ruidosos os ponteiros do meu relógio da vida.
Ponho as mãos naquela mistura crua e amassada que se cola à minha pele como se dela fizesse parte, sabendo que, na realidade, nunca deixou de fazer. Também sei que, por mais que amasse, ela nunca sairá quebrada. Nunca saiu. Mas mais uma vez deixo-me ficar exausta até chegar a esta conclusão.
E desligo a luz para descansar, sem conseguir lavar o balcão.
quarta-feira, agosto 03, 2011
Comida congelada
As prateleiras do frigorífico nunca estão iguais. Há sempre novas embalagens por abrir, vegetais frescos acabados de colher, garrafas meio cheias ou meio vazias. Mas, lá no fundo do congelador, permanecem as eternas caixas de comida que nunca chegou a ser cozinhada. Ou porque não sabia o que fazer com ela, ou porque preferi guardá-la para uma ocasião especial. Mas o tempo passa, sem qualquer gesto piedade nos ponteiros do relógio.
Abro a gaveta e olho para ela. Vejo que o seu prazo de validade foi ultrapassado há muito. Não que não o soubesse: mas preferia não ver os números pequeninos escondidos por baixo do gelo. Às vezes, este é o problema.
Abro a gaveta e olho para ela. Vejo que o seu prazo de validade foi ultrapassado há muito. Não que não o soubesse: mas preferia não ver os números pequeninos escondidos por baixo do gelo. Às vezes, este é o problema.
quarta-feira, julho 27, 2011
segunda-feira, julho 25, 2011
Carne de porco à la Pauliteira
É difícil resistir-lhe: o porco tem os seus encantos.
Não é que seja obrigatoriamente bonito. Mas seja no lombo, nos pezinhos, nas bochechas, nas orelhas… É inegável o seu gosto guloso. Daqueles que nos faz ficar com os cantos da boca gordurosos, salgados, com vontade de lamber até à última réstia de sabor.
Contudo, não se pode confiar na sua aparência consistente, algo que só se aprende ao fim de muitas queimadelas no churrasco da vida. O porco é porco. E sempre o será. Faz parte da sua essência e não somos nós que, ao degustá-lo nas delícias que nunca passarão do espeto, o vamos mudar. Ele será sempre prejudicial para o nosso estômago, pele, artérias. E coração.
Ainda não me fartei dos galos do campo, mas para porcos já não há espaço. Já tive a minha dose.
Não é que seja obrigatoriamente bonito. Mas seja no lombo, nos pezinhos, nas bochechas, nas orelhas… É inegável o seu gosto guloso. Daqueles que nos faz ficar com os cantos da boca gordurosos, salgados, com vontade de lamber até à última réstia de sabor.
Contudo, não se pode confiar na sua aparência consistente, algo que só se aprende ao fim de muitas queimadelas no churrasco da vida. O porco é porco. E sempre o será. Faz parte da sua essência e não somos nós que, ao degustá-lo nas delícias que nunca passarão do espeto, o vamos mudar. Ele será sempre prejudicial para o nosso estômago, pele, artérias. E coração.
Ainda não me fartei dos galos do campo, mas para porcos já não há espaço. Já tive a minha dose.
segunda-feira, julho 18, 2011
Fast food

Vivemos na era da comida de plástico. Da que se come porque dá mais jeito assim… é mais rápida, está mesmo ali à mão, não dá trabalho a cozinhar, nem traz surpresas no tempero. Pode não nos fazer revirar os olhos de prazer, mas é confortável para o estômago: fá-lo sentir cheio.
A mim isso não me chega. Não me alimenta (a alma). Por muitos dissabores que tenha, na minha culinária da vida não há espaço para menos do que comida gourmet. Que não significa ser caviar…. Muito pelo contrário. Tão pelo contrário.
Acima de tudo opto por ser gourmet comigo mesma. Com os meus valores, com os meus sonhos em castelo. "A fast food mata", não tenho dúvidas. A vida.
A mim isso não me chega. Não me alimenta (a alma). Por muitos dissabores que tenha, na minha culinária da vida não há espaço para menos do que comida gourmet. Que não significa ser caviar…. Muito pelo contrário. Tão pelo contrário.
Acima de tudo opto por ser gourmet comigo mesma. Com os meus valores, com os meus sonhos em castelo. "A fast food mata", não tenho dúvidas. A vida.
quarta-feira, julho 13, 2011
domingo, abril 24, 2011
Mistura de vegetais
Houve quem os descascasse, camada por camada, sem sequer ter a real noção de que o estava a fazer. Mas houve também quem a tivesse toda. O que fazer com essas cascas, empoeiradas pela terra da horta regada a lágrimas escondidas, é que ninguém soube. Nem sei se algum dia saberá.Olho para o caixote ao lado do fogão e vejo os despojos. Amarelecidos por emoções desgastantes. Pisados por mãos descuidadas. Por tantos excessos que nunca serão demasiado excessivos. Por silêncios que dizem mais que mil palavras, mas que apodrecem a frescura que ainda lhes era devida. Cascas de mil cores e texturas. Àsperas. Macias. Rugosas. Cinzentas, mas com genuina cor.
Em pedaços, o miolo de todas ela observa-se. Sabendo que as restantes camadas serão cada vez mais difíceis de arrancar. Não porque não tenha vontade. Apenas porque não consegue ceder a mais mãos daquelas. Nem das outras. Porque o que um dia foi um cesto de verduras resplandecentes na bancada da cozinha é agora um discreto saco de vegetais congelados. Aberto aos temperos da culinária da vida mas eternamente conservado no frio. Com medo de se queimar.
sábado, março 19, 2011
À mesa com o solitário (III)
Ele: Estiveste doente e não me disseste nada. Não percebo.
Eu: Gosto de resolver estas coisas sozinha.
Ele: A última vez que fui ao hospital foi há muitos anos. Fizeram-me exames a tudo. Chegaram à conclusão de que não tenho coração.
Eu: Às vezes é melhor assim.
Ele: (acende o cigarro e abana a cabeça)
Eu: (franzo-lhe o sobrolho)
Ele: Não. Não queiras chegar a essa conclusão com essa idade.
Eu: Gosto de resolver estas coisas sozinha.
Ele: A última vez que fui ao hospital foi há muitos anos. Fizeram-me exames a tudo. Chegaram à conclusão de que não tenho coração.
Eu: Às vezes é melhor assim.
Ele: (acende o cigarro e abana a cabeça)
Eu: (franzo-lhe o sobrolho)
Ele: Não. Não queiras chegar a essa conclusão com essa idade.
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