quarta-feira, setembro 09, 2009

Paulinha no passador

"Ou você anda ansiosa, ou está quase a bater a bota".
O veredito de uma médica, em plena consulta do viajante. Sem direito a auscultação.
As minhas mãos suadas, as olheiras e as insónias já não mentem: estou a rebentar pelas costuras. Um verão inteiro sem folga nos refogados da escrita, deixou-me assim. E entre antevisões de pitadas de malária, febre amarela, poliemite, hepatites e até mesmo a gripe dos porcos, preparo-me para ir em busca de sabores exóticos na outra ponta do mundo. Quero lá saber se vou com os braços feitos num passador... quero é chegar lá e começar a explorar as prateleiras de iguarias que me esperam.

domingo, setembro 06, 2009

Intensidades do lume

Na culinária da vida a intensidade do lume do fogão deve ser regulada com inteligência. Há uma facilidade estrondosa em queimarmos alimentos ou até mesmo a mão que tempera.
Há pratos que nem sequer deviam ir ao lume, sob risco de ficarem estragados. Há outros que, depois da fervura, deviam entrar directamente no frigorífico para enrijecerem sem qualquer possibilidade de amolecerem… porque não é essa a sua essência. Têm-me dito que estou obcecada com o controlo. Eu diria que é apenas bom-senso gastronómico.
Vejo-me constantemente a braços com isto das medições do lume. Arrisco brincar com o fogo, quando sei que há uma possibilidade grande de estragar parte da refeição. Por outro lado, deixo despropositadamente(!) a porta do frigorífico aberta e quando dou conta há mais pratos moles do que rijos na minha cozinha. O que fazer com eles é que não sei. Para já, “nada” parece-me a resposta certa. Só não me quero é queimar.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Pitadas de...

Porque na cozinha é preciso uma pitada de altruísmo de vez em quando. Porque prefiro pratos doces do que amargos. Porque perdi a paciência para aturar (todos) os molhos agridoces que nunca serão nem uma coisa nem outra. Ando demasiado ocupada para desperdiçar tempo em receitas antigas. As novas sabem muito melhor.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Papo-seco

Ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar, ao lanche, à ceia… ou sempre que der a fome, na minha cozinha tem-se optado pelo papo-seco (o termo carcaça é feio). São muitos os que me perguntam: “Porquê papos-secos?”.
Ora bem, cada vez que opto por pães-de-leite o meu estômago dá-se mal. São demasiado moles. Falta-lhes consistência. O sabor doce é demasiado fugaz. Já os papos-secos são habitualmente rijos. Pães com conhecimento, sabedoria da culinária da vida (a melhor de todas). Embora com uma aparência à partida mais tosca, revelam-se delicados e abertos às mais doces compotas e marmeladas. A simplicidade com que encaram as refeições é um desafio, assim como a atitude decidida perante os restantes membros da padaria. Seja à mesa ou embrulhados num guardanapo, sabem estar em qualquer lado. Fazem o meu estômago sentir-se seguro. E só quem ainda não experimentou é que põe em duvida a sua capacidade calórica.
Cada vez tenho menos paciência para pães de leite. Lamento.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Fruta ao natural

Este post esteve para se chamar “salsicha fresca”, mas quando descobrimos o lado mais saboroso de um prato, ser jocoso não cai bem no estômago.
Descobri o prazer da fruta ao natural. Juntam-se bananas com meloas… sem casca, nem revestimentos de açúcar. Laranjas com mamão, peras com pêssegos carecas. Sem preconceitos.
Há algo de libertador na fruta ao natural. É como saborear o que de mais fresco temos na cozinha e nunca temos a ousadia de provar. A mim soube-me bem. A partir de hoje, o avental está dispensado.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Felicidade em castelo

Houve tempos em que o conto de fados era a minha realidade. Alegria misturada com excentricidade, numa casa onde a felicidade era batida em castelo. Nessa altura cozinhava-se ao som de guitarradas. Há muito que não me lembrava disto e uma banal conversa no msn acabou por me fazer lá voltar. Por um momento, revi-me naqueles castelos. E com os olhos a brilhar, senti saudades.


quinta-feira, agosto 13, 2009

Algodão doce

Leve… sem nenhum peso que não se desfaça na boca em segundos. Colorido… para fazer os olhos sorrir. Feito apenas de açúcar cristalizado… com o brilho que nestas coisas se quer. Doce. No fundo, tudo se resume a isto:

quarta-feira, agosto 12, 2009

Bolo de caco

Há semanas em que somos amassados de todos os lados. Nunca percebi muito bem se era essa a receita do bolo do caco, mas acho que se enquadra.
No único dia do ano em que me dou ao luxo de ficar doente e ir para casa enfiar-me na cama, surge o telefonema que ninguém quer ouvir. É o número da mãe e atendo com um impaciente “diz lá”. Do outro lado, uma voz masculina: “Olhe desculpa lá mas a sua mãe desmaiou no meio da estrada e não consegue falar”.

Não me lembro de como atravessei a cidade, mas fui rápida. Demais. Seguiu-se uma noite no hospital, mil e um exames e uma dose de mimos extra em que me tornei perita ao longo dos anos. No esquecimento ficou o facto anual de eu estar doente.
Com todas as preocupações do mundo concentradas no meu estômago de caco - misturadas numa pitada de exageros e umas belas doses de anti-inflamatórios - acabo por ir ao médico de família que, pela primeira vez na minha vida, me examina. Veredicto: já estive mais nova… e com uma úlcera a menos. Mas a cozinha continua a funcionar… as usual…

segunda-feira, agosto 10, 2009

Uma questão de liberdade gastronómica

Há pequenos gestos que demoram muito tempo até que sejamos capazes de os fazer. Apagar um nome do menu, por exemplo. Ou desligar o telefone e restantes meios de contacto, de forma a deixarmos de atender pedidos descabidos fora de horas. Quem sabe, também ocultarmos da lista do supermercado aquele ingrediente que invariavelmente ainda nos incomoda porque simplesmente continua visível onde menos esperamos.
Mas quando o conseguimos fazer – e acreditem que é mais difícil do pode parecer – há uma sensação de liberdade incrível. Como se voltasse a ser capaz de ver. Ver. É o que eu acabo de sentir.

sábado, agosto 08, 2009

Quinta da Aveleda

Uma tarde fora de folga da cozinha. Juntam-se dois companheiros de alhadas e, numa praia algures na Arrábida, inicia-se uma espontânea viagem aos sabores da Quinta da Aveleda. Uma viagem: duas línguas a ficarem mais rápidas e o raciocínio mais lento. Duas viagens: muitas gargalhadas e telefonemas disparatados. Três viagens: o caldo entornado… na vertigem da estrondosa amizade que os une. Confissões que não se repetem. Uma alegria que, embora alcoólica, é verdadeira. Mesmo com ressaca… Impagável.