Há gostos gastronómicos estranhos, é certo. E se havia coisa que eu gostava em miúda era de ir para a praia. A pele bem salgada, os dedos engelhados, eu aos saltos, incansável dentro do meu fato de banho com folhinhos cor-de-rosa. E onde está a parte estranha disto? Calma, já lá chegamos. Lembro-me de chegar a casa e ir para o habitual banho da praxe tirar os quilos de areia de cima. E depois vinha o creme Nívea, aquele que dá para o corpo todo e que, passados quase 30 anos continua a ser o de eleição lá em casa. A minha mãe lambuzava-me de hidratação, enquanto eu própria, ao mesmo tempo, me lambuzava de gula a trincar pêras.
quarta-feira, agosto 08, 2012
Pêras com creme Nívea?
Há gostos gastronómicos estranhos, é certo. E se havia coisa que eu gostava em miúda era de ir para a praia. A pele bem salgada, os dedos engelhados, eu aos saltos, incansável dentro do meu fato de banho com folhinhos cor-de-rosa. E onde está a parte estranha disto? Calma, já lá chegamos. Lembro-me de chegar a casa e ir para o habitual banho da praxe tirar os quilos de areia de cima. E depois vinha o creme Nívea, aquele que dá para o corpo todo e que, passados quase 30 anos continua a ser o de eleição lá em casa. A minha mãe lambuzava-me de hidratação, enquanto eu própria, ao mesmo tempo, me lambuzava de gula a trincar pêras.
terça-feira, agosto 07, 2012
Cozinha pouco católica
É por estas e por outras que na minha cozinha não se cozinham hóstias. Somos pouco católicos (entre outras) e gostamos muito do primeiro pecado capital. Porque lavagens cerebrais e dogmas incoerentes, onde reinam a culpa e o medo em prol da suposta protecção divina, não têm espaço entre estas panelas sagradas da vida. Venha a nós a gula e seja feita a nossa vontade de cozinhar os mais deliciosos petiscos. Sem obrigações.
segunda-feira, julho 25, 2011
Carne de porco à la Pauliteira
Não é que seja obrigatoriamente bonito. Mas seja no lombo, nos pezinhos, nas bochechas, nas orelhas… É inegável o seu gosto guloso. Daqueles que nos faz ficar com os cantos da boca gordurosos, salgados, com vontade de lamber até à última réstia de sabor.
Contudo, não se pode confiar na sua aparência consistente, algo que só se aprende ao fim de muitas queimadelas no churrasco da vida. O porco é porco. E sempre o será. Faz parte da sua essência e não somos nós que, ao degustá-lo nas delícias que nunca passarão do espeto, o vamos mudar. Ele será sempre prejudicial para o nosso estômago, pele, artérias. E coração.
Ainda não me fartei dos galos do campo, mas para porcos já não há espaço. Já tive a minha dose.
quinta-feira, junho 16, 2011
domingo, dezembro 26, 2010
Pitadas soltas
Não sei qual das duas pitadas soltas gosto mais. Mas nenhuma é suficiente.
terça-feira, novembro 16, 2010
O Ingrediente
"Cozinhar não é um serviço", disse ela.
"Cozinhar é um modo de amar os outros"
Mia Couto, em Fio de Missangas
Nunca tive dúvidas: o mais importante ingrediente da culinária da vida é o amor. Aquele que pomos em cada pitada de abraço a um amigo. Em cada raspa de sorriso cúmplice com a nossa mãe. Em cada refogado sincero com o nosso irmão. Em cada retempero do presente com o nosso pai. Em cada olhar polvilhado de ternura deitado ao nosso sobrinho. Em cada sofreguidão de um beijo que deixou de ser só picante para ser também açucarado. Em cada momento cru que temos quando olhamos para nós próprios no espelho.
sexta-feira, outubro 15, 2010
Conversas na cozinha catariana (parte II)
Eu: Muitas vezes, sim.
Ele: E não tem medo?
Eu: Já não. É algo que se aprende com o tempo.
Ele: Então e o seu marido, porque não vem consigo?
Eu: Não tenho. Em Portugal casamo-nos tarde.
Ele: (silêncio)
Eu: (silêncio)
Ele: Senhora, espero sinceramente que um dia encontre um homem à altura de todas as suas viagens.
("Também eu, Argie. Também eu", pensei sem abrir a boca). No mundo gastronómico, há pessoas que não precisam conhecer-nos há muito tempo para conseguir interpretar um suspiro ou uma meia palavra, que esconde tantas outras por trás. Há quem nos oiça sem termos de falar. Quem nos veja totalmente, sem ter olhado para nós mais do que cinco minutos. E isso sabe bem.
quinta-feira, outubro 07, 2010
Pastel de massa tenra
quarta-feira, agosto 04, 2010
Gelatina
quinta-feira, julho 15, 2010
Meloa com presunto
"Adoro-as". Com aquele sorriso cru, pesou-as com a mão e repetiu: "Adora-as". Por cada talhada de meloa que ele sofregamente cortava, eu respondia com incursões às fatias de presunto ainda mal curado de outras refeições pesadas... Por vezes surpreendemo-nos com os sabores mais simples que se tornam em verdadeiros pratos gourmet. Um em cima do outro, nunca a meloa com presunto soube tão bem.
quarta-feira, junho 16, 2010
Cabernet Sauvignon
Não foi a primeira vez que, na sua consistência encorpada e de coloração intensa – tantas vezes apurada em tons de frutos vermelhos –, o Cabernet Sauvignon foi levado à boca com esta dúvida pelo meio. Entre períodos passados em cubas do mais frio inox e envelhecido por cascos de carvalho que lhe esgotam a sua textura natural, também já perdeu a noção de que idade realmente terá. Quando o tentam conhecer a fundo, há quem diga que tem um aroma complexo. Sem saber se isso é bom ou mau, ele acha que é apenas um vinho simples. Sem idade.
quarta-feira, maio 12, 2010
Gelado de requeijão com marmelada
terça-feira, maio 11, 2010
English breakfast
O ovo é frito até a gema brilhar… pronta a rebentar, na sua habitual compostura. As salsichas são atiradas para a frigideira, uma a uma. Ganham cor, mas não se perde muito tempo com elas pela manhã. Juntam-se torradas, aparadas, sem côdeas duras indesejadas. Há três tipos de doces, com texturas diferentes que me põem a boca sem amarguras. Da cafeteira topo de gama sai café, com aroma gourmet vindo de longe e de perto. Há também sumo abundante, de (muitos restos de) frutas tropicais. O pequeno-almoço é servido num tabuleiro bonito. Dizem que a vista também come. Tenho de concordar. Abro o melhor dos guardanapos de linho. Sinto-lhe o cheiro perfumado, que poderia inebriar o meu olfacto ainda tão jovem e ansioso por mais e mais. Há uma flor ao lado. Gosto. Afinal, é sempre romântico ter flores na mesa. Mas então, porque será que nada disto me entusiasma? Levanto-me. Continuo a preferir uma meia de leite e um pão com manteiga.
Simples. (Como eu).
domingo, março 14, 2010
Travessia de claras em castelos
Batemos os castelos para eles se desfazerem a seguir. Mas insistimos em voltar a ergue-los. Porquê? Talvez porque aqueles pequenos momentos fugazes nos fazem roçar aquilo que julgamos ser a felicidade. A memória faz o resto. Vale a pena? Ainda não percebi. Mas acredito que sim. Nem tudo tem de ser percebido.
Continuo a bater porque desisitir não faz parte das coisas que me estão permitidas. Mudo de mão. Troco o garfo por um batedor de claras. Mantenho apenas a essência da receita: uma pitada de mim. Por mais vezes que mude e escolha novas formas de chegar aos meus castelos, eu sou o único ingrediente que nunca me irá faltar. Por mais longa que seja a travessia:
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
Nouvelle cuisine
Sal ou açúcar? Azeite ou vinagre? Frito ou cozido? Experimentemos os sabores opostos no mesmo prato. A nouvelle cuisine foi feita para isso.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
Palavras gourmet
Elogio ao amor
“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
Miguel Esteves Cardoso
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Feijão e arroz
Um negro, outro branco. As diferenças começam aqui. Mais: Um é à partida seco e solto, com medo de se apegar; O outro gosta de mostrar logo o seu melhor caldo pastoso que, porém, nunca irá voltar a dar a ninguém… a não ser apenas para provar. Contudo, são ambos portadores de uma simplicidade complexa que os torna demasiado iguais no prato da vida. E é aqui que começa a química do feijão preto e do arroz.Lado a lado partilham o prato, sabendo que nunca poderão vir a ser cozinhados dentro do mesmo tacho. Ainda assim, o arroz não gosta quando o feijão fica frio. Mas esforça-se, com cada vez menos goma, por perceber que nem sempre a travessa consegue aquecer da mesma forma as suas composições distintas. Dentro da igualdade, são diferentes. E disso, já nenhum dos dois se esquece.
Por motivos diferentes e iguais, ambos conhecem a panela de pressão. O som do apito e a força do vapor, que queima até ao mais fundo que pode haver, nunca sairão das suas consistências. E esta ligação, de quem se queimou e mesmo assim permanece com ar intacto, poucos poderão algum dia perceber. Embora o feijão tenha receio de afogar o arroz no seu caldo negro, o arroz gosta de se deixar envolver… porque sabe que (ainda) não está na hora de perder o seu lado branco, mais imaculado.
Pela mesa passam espetos com salsichas e entremeadas, bem passadas, mal passadas, mas incapazes de entender porque o feijão e o arroz continuam a sorrir discretamente um ao outro, quando já deviam ter esgotado a sua capacidade de(se) partilharem. Embora juntos desfrutem do sabor da carne na travessa vezes sem conta, ambos sabem que não vão limitar a entrada de bananas fritas e couves mineiras no menu. A vida é um rodízio demasiado grande e nenhum quer abdicar da sua enorme variedade. Mas, onde quer que estejam, vão ser sempre o feijão e o arroz. Lado a lado. Mesmo que cozinhados em bicos distantes no fogão.
domingo, dezembro 20, 2009
Frase batida
quarta-feira, novembro 18, 2009
Envelope recheado com doce
“Paulinha (como no fundo tu gostas)
Lembra-te da felicidade que sentiste em Ubud e alivia o teu coração. Acredita em ti. Não tenhas medo. Recorda aquele jantar: ‘Passei anos à procura da chave e a porta esteve sempre aberta’. Se precisares de mudar, muda. Se tiveres vontade de te entregar, entrega. Vive! Sorri!
Viver é maravilhoso. Seja nas montanhas tailandesas, nos campos de arroz balineses ou em Lisboa, lembra-te sempre de ser feliz”.
Decido partilhar esta mensagem porque acho que se adequa a muitos dos que por aqui passam. Palavras simples, escritas de mim para mim. Porque sabia que o regresso a casa estaria envolto em confusão… e porque nunca ninguém nos conhecerá melhor do que nós mesmos. Recebo esta mensagem com várias semanas de atraso (como eu gosto da lentidão da Indonésia…). Pensei que se tinha perdido, mas chega ironicamente no dia em que precisava dela. Deixo de tentar perceber os porquês destes acasos. Mas tiro a conclusão a que tantas vezes já tive de chegar: só eu estarei sempre lá para mim. Não sorrio, mas sabe-me bem ter esta certeza.
quarta-feira, outubro 21, 2009
Arroz cozido
Vestidos de cor de laranja eles passam por mim. Meto a mao no arroz, faco uma bola e ponho dentro das tacas que cada um transporta. A aragem fresca bate-me na cara. As maos ardem-me... mas nao posso (nem quero) parar. O arroz alimenta-lhes o corpo para depois poderem rezar pelas nossas almas. Nao ha mais comida... So o tao simples arroz.
Apercebo-me que o que alimenta o corpo muitas vezes tb nos alimenta o espirito. Gosto do arroz assim. Sem qualquer ingrediente adicional. E percebo: cada vez aprecio mais as coisas simples. Aquilo que nao tem duplos sabores. O que me faz sentir tranquila. E nao interessa se nao ha colher e temos de comer o arroz com a mao ou ate mesmo com os complicados pauzinhos: o que e simples nao tem de ser facil... apenas genuino. Com sincera vontade.


