São três da manhã. Para trás ficam os sons e cheiros do Bairro Alto. E, na cozinha, continuamos a discutir os ingredientes dos pastéis da poesia. Ele, que tantas vezes não sabe ser cozinheiro, ensina-me o que melhor sabe fazer: música. Explica-me como se devem bater os ingredientes (no papel), como se deve cortar a massa em quadras ou sextilhas, como e quando se deve polvilhar com um refrão. Ensina-me a arredondar sílabas de forma perfeita. Como juntar palavras que noutra receita não fariam sentido.
Revela-me os seus pastéis secretos. A sua sensibilidade, que tantas vezes serviu de recheio aos que cantam noite adentro. Espanta-me que também ele tenha dois lados de uma só pessoa. Que consiga ser tão contraditório quanto eu nisto do coração. Desta vez não frito os pastéis. Deixo-os repousar na bancada porque o silêncio e um sorriso é (às vezes) a melhor poesia que podemos oferecer a alguém. No ouvido, ficou-me esta até adormecer:
terça-feira, março 23, 2010
sábado, março 20, 2010
Adoçante
Abro o pacote do adoçante. Sinto-lhe o cheiro. Toco-lhe com a língua só para ter a certeza que é mesmo doce. Deixo-o cair no café. Vejo-o a desfazer-se. O amargo ganha outro sabor. Bebo-o sem pressa, mesmo que tenha urgência dele. Sei que o adoçante é uma mentira de doce. Mesmo quando acredito que não.
Mas nem por isso deixa de saber sempre bem. Por um momento.
Mas nem por isso deixa de saber sempre bem. Por um momento.
quarta-feira, março 17, 2010
Batata
segunda-feira, março 15, 2010
Espinafre
É alto, esguio, frágil na aparência, mas forte por dentro... como só quem já passou agruras na horta da vida sabe ser. Tenho um amigo que é assim. Já perdi a conta aos anos, mas já lá vão muitos desde que lhe comecei a chamar espinafre.
Há vegetais que entram na nossa cozinha sem querer e que a culinária da vida se encarrega de manter no nosso caminho repetidamente, tornando-os em presenças habituais no menu. Criam-se laços, geram-se sentimentos de protecção e carinho que nem mesmo o tempero mais avinagrado consegue estragar. Talvez por isso, quando de manhã me dizem em tom grave "o 'espinafre' teve um acidente" sinto-me a desfalecer durante uma fracção de segundo que parece durar uma eternidade. Mantenho o meu ar mais sereno (como é hábito), mas só sossego a minha couve coração quando oiço uma voz de sempre garantir-me que o espinafre continua rijo, embora de molho à espera de ir à faca.
Salteio-o de palavras positivas e piadas parvas. Tenho a certeza que a força que lhe é característica (talvez para muitos desconhecida) não vai faltar. Agora, em casa, suspiro finalmente. Já não foi uma estreia nossa de sorrisos doridos entre as paredes brancas. Mas sabe sempre demasiado amargo, como se fosse a primeira vez.
Há vegetais que entram na nossa cozinha sem querer e que a culinária da vida se encarrega de manter no nosso caminho repetidamente, tornando-os em presenças habituais no menu. Criam-se laços, geram-se sentimentos de protecção e carinho que nem mesmo o tempero mais avinagrado consegue estragar. Talvez por isso, quando de manhã me dizem em tom grave "o 'espinafre' teve um acidente" sinto-me a desfalecer durante uma fracção de segundo que parece durar uma eternidade. Mantenho o meu ar mais sereno (como é hábito), mas só sossego a minha couve coração quando oiço uma voz de sempre garantir-me que o espinafre continua rijo, embora de molho à espera de ir à faca.
Salteio-o de palavras positivas e piadas parvas. Tenho a certeza que a força que lhe é característica (talvez para muitos desconhecida) não vai faltar. Agora, em casa, suspiro finalmente. Já não foi uma estreia nossa de sorrisos doridos entre as paredes brancas. Mas sabe sempre demasiado amargo, como se fosse a primeira vez.
domingo, março 14, 2010
Travessia de claras em castelos
Há um tempo em que temos a força toda, outras em que o braço cede e quebramos o ritmo. Não há regras: O segredo é nunca parar. Mesmo que a vontade seja muita.
Batemos os castelos para eles se desfazerem a seguir. Mas insistimos em voltar a ergue-los. Porquê? Talvez porque aqueles pequenos momentos fugazes nos fazem roçar aquilo que julgamos ser a felicidade. A memória faz o resto. Vale a pena? Ainda não percebi. Mas acredito que sim. Nem tudo tem de ser percebido.
Continuo a bater porque desisitir não faz parte das coisas que me estão permitidas. Mudo de mão. Troco o garfo por um batedor de claras. Mantenho apenas a essência da receita: uma pitada de mim. Por mais vezes que mude e escolha novas formas de chegar aos meus castelos, eu sou o único ingrediente que nunca me irá faltar. Por mais longa que seja a travessia:
Batemos os castelos para eles se desfazerem a seguir. Mas insistimos em voltar a ergue-los. Porquê? Talvez porque aqueles pequenos momentos fugazes nos fazem roçar aquilo que julgamos ser a felicidade. A memória faz o resto. Vale a pena? Ainda não percebi. Mas acredito que sim. Nem tudo tem de ser percebido.
Continuo a bater porque desisitir não faz parte das coisas que me estão permitidas. Mudo de mão. Troco o garfo por um batedor de claras. Mantenho apenas a essência da receita: uma pitada de mim. Por mais vezes que mude e escolha novas formas de chegar aos meus castelos, eu sou o único ingrediente que nunca me irá faltar. Por mais longa que seja a travessia:
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
Que já tem a forma do nosso corpo,
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia.
E se não ousarmos fazê-la,
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos"
(Fernando Pessoa)
quinta-feira, março 11, 2010
Aguardente velha
Estou a descer a escada do prédio e deparo-me com um homem entroncado, barba por fazer, que me mira de alto a baixo enquanto puxa uma passa no cigarro. Por trás do tamanho, vejo-lhe o brilho infantil nos olhos e a timidez disfarçada num “bom dia” em tom decidido de homem feito.Só quando chego ao carro é que consigo chegar a uma conclusão: era o miúdo do andar de cima. O mesmo que, ano após ano, ouvi a sair para a escola aos saltos pela escada fora. Cresceu. Está um homem. Será que também eu estarei diferente aos olhos dele?
Penso nos últimos anos e percebo que voaram. Há um ritmo alucinante que se mantém na minha vida, sem que eu consiga carregar no botão pause. Como se a minha necessidade de sugar cada minuto me envolvesse num carrossel demasiado acelerado que me deixa tonta, mas nunca enjoada.
Entro na cozinha e olho para a prateleira onde guardo a aguardente. Transparente, forte, simples… cada vez mais envelhecida, mas consequentemente mais intensa. Tal como eu. Não é bom, nem mau. É. Não tem a ver com a idade, tem a ver com o que se vive. Com o tempo e a falta dele. Já um dia escrevi isto aqui na cozinha e hoje volto a sentir o mesmo: a vida não pára. E eu também não.
terça-feira, março 09, 2010
domingo, março 07, 2010
Caramelo
Basta pensar que é feito a partir de açúcar e pouco mais. Já a consistência, essa será sempre dura. Mas mesmo assim, doce. O pior do caramelo é que custa a sair dos dentes. Mesmo depois da digestão estar definitivamente feita. Sei que podia comprar um fio dental mais eficiente mas não quero. Por mais contraditório que possa parecer, gosto dos vários restos dispersos que, ao longo dos anos, vão ficando eternamente presos na minha boca. Já não são eles que me alimentam, mas sabem-me bem. Não tenho jeito para guardar gostos azedos, é uma verdade. Ainda bem.
sexta-feira, março 05, 2010
Tempero recuperado
"There is nothing like returning to a place that remains unchanged to find the ways in which you yourself have altered" (by Nelson Mandela)
Tenho a sorte de ter sempre onde recuperar o tempero. Onde me perco e encontro. Onde volto sempre para depois partir, sem nunca chegar a ir embora. Não me falha o sorriso sincero. O olhar duro quando sei que optei por abusos gastronómicos. As palavras... as eternas palavras que voam entre sonhos e angústias, partilhadas tantas vezes em sussurros ou gargalhadas estridentes. Às vezes, no silêncio.
Há um refúgio em forma de galheteiro (que se multiplica em vários) onde posso voltar vezes sem conta e restabelecer os sabores em falta no meu menu. Onde descubro o que mudou em mim. E o que nunca há-de mudar. Tenho sorte pelo abraço. Mesmo eternamente tão diferentes na nossa essência, ele é dado com sentimento igual. O da amizade genuina. Tenho sorte, tenho mesmo.
quarta-feira, março 03, 2010
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