Não consigo precisar em que momento toda a salada ficou fria... para nunca mais voltar atrás. Não sei quando é que todos os meus pedacinhos cortados com alguma infantilidade deixaram de ser formas curiosas na travessa, para passarem a pedaços fortes, cozidos, secos, sem deixarem contudo de acreditar na maionese que os vai acariciando e tornando-os macios.
É difícil lembrar-me da hora em que abri o frigorífico da alma para tornar a minha salada russa em algo que, pouco a pouco, deixou de ser fumegante. Quando é que deixei de ceder a jogos e manipulações, a desilusões com acompanhamentos surpreendentemente mal-formados.
Mesmo acompanhada à mesa, entrei sozinha nesta eterna confeção. Porque é assim que sempre estarei.
E com um sorriso.
quinta-feira, dezembro 23, 2010
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Porta da cozinha (re)aberta
Sei que vos parece que tenho estado ausente. Que não tem havido refogados que vos cheguem ao nariz vindos daqui. Mas a cozinha não tem estado parada… apenas encostei a porta principal devagarinho para simplesmente me permitir abrir a das traseiras com toda a calma:
terça-feira, novembro 16, 2010
O Ingrediente
"Cozinhar não é um serviço", disse ela.
"Cozinhar é um modo de amar os outros"
Mia Couto, em Fio de Missangas
Nunca tive dúvidas: o mais importante ingrediente da culinária da vida é o amor. Aquele que pomos em cada pitada de abraço a um amigo. Em cada raspa de sorriso cúmplice com a nossa mãe. Em cada refogado sincero com o nosso irmão. Em cada retempero do presente com o nosso pai. Em cada olhar polvilhado de ternura deitado ao nosso sobrinho. Em cada sofreguidão de um beijo que deixou de ser só picante para ser também açucarado. Em cada momento cru que temos quando olhamos para nós próprios no espelho.
terça-feira, novembro 09, 2010
sábado, outubro 23, 2010
Empanada argentina

Não há segredos sobre a empanada: para ser boa deve ser "muy rica". Na massa quebrada estendida na bancada ao longo de quase três milhões de metros quadrados, junta-se um recheio difícil de descrever. Montanhas cortadas em pedaços irregulares, planícies de iguarias fortes, uma pitada de salinas, folclore para saltear e um pouquinho de tango escondido no meio só para fazer apurar o sabor. Juntam-se ainda doses significativas de cordialidade e um exagero de malaguetas bravas. Não há molho: a essencia da empanada é seca. Quando por fim a comi e me demorei a saborear cada um dos seus ingredientes, fiquei satisfeita.
Mas quando me perguntam porque não fiquei totalmente deliciada, a resposta é simples: porque na sua simplicidade lhe falta a alegria genuína de viver. E isso é essencial nos meus roteiros gastronómicos.
sábado, outubro 16, 2010
Pão com mel
Quando a barriga fica fria de gula a meio da noite, nada como uma ida furtiva à cozinha. Sabemos estar a pisar o risco, mas o fator caloricamente proibido faz com a saliva se forme na boca com a irracionalidade que toda a vontade irremediável de comer contém.No maior dos silêncios, mas com a maior das urgências, tira-se o pão do saco. O pote de mel abre-se com a ajuda das mãos trémulas. O miolo do pão entranha-se no mel demoradamente. Lambem-se os lábios. Lambem-se os dedos peganhentos. Contra o armário, as dentadas são ávidas, numa corrida contra o tempo. Ninguém pode ver. Ninguém pode saber. Mas no fim não há culpas. Nem sequer palavras. Limpam-se as migalhas para não deixar vestígios. Apenas o cheiro poderia denunciar a cedência à gula.
Horas depois percebo que não havia necessidade daquela refeição secreta. Mas foi isso mesmo que a tornou tão saborosa. Digna dos melhores menus.
sexta-feira, outubro 15, 2010
Conversas na cozinha catariana (parte II)
Ele: Senhora, viaja sempre sozinha?
Eu: Muitas vezes, sim.
Ele: E não tem medo?
Eu: Já não. É algo que se aprende com o tempo.
Ele: Então e o seu marido, porque não vem consigo?
Eu: Não tenho. Em Portugal casamo-nos tarde.
Ele: (silêncio)
Eu: (silêncio)
Ele: Senhora, espero sinceramente que um dia encontre um homem à altura de todas as suas viagens.
("Também eu, Argie. Também eu", pensei sem abrir a boca). No mundo gastronómico, há pessoas que não precisam conhecer-nos há muito tempo para conseguir interpretar um suspiro ou uma meia palavra, que esconde tantas outras por trás. Há quem nos oiça sem termos de falar. Quem nos veja totalmente, sem ter olhado para nós mais do que cinco minutos. E isso sabe bem.
Eu: Muitas vezes, sim.
Ele: E não tem medo?
Eu: Já não. É algo que se aprende com o tempo.
Ele: Então e o seu marido, porque não vem consigo?
Eu: Não tenho. Em Portugal casamo-nos tarde.
Ele: (silêncio)
Eu: (silêncio)
Ele: Senhora, espero sinceramente que um dia encontre um homem à altura de todas as suas viagens.
("Também eu, Argie. Também eu", pensei sem abrir a boca). No mundo gastronómico, há pessoas que não precisam conhecer-nos há muito tempo para conseguir interpretar um suspiro ou uma meia palavra, que esconde tantas outras por trás. Há quem nos oiça sem termos de falar. Quem nos veja totalmente, sem ter olhado para nós mais do que cinco minutos. E isso sabe bem.
terça-feira, outubro 12, 2010
Conversas na cozinha catariana (parte 1)
Eu: Nunca se sabe. Não percas a esperança.
Ele: Já não tenho ilusões e é melhor assim. Mas gostava de lhe pedir uma coisa.
Eu: Claro, diz.
Ele: Pode enviar-me fotos das suas viagens para eu ver como realmente é o mundo fora daqui?
Há alturas em que todo o cansaço de uma viagem se dissipa para dar lugar a um aperto no peito. Por todos aqueles que já se resignaram à sua condição. Pela sorte que todos os dias descubro ter numa vida que tantas vezes já maldisse.
Viajar tem disto. Os sabores nunca mais voltam a ser iguais.
quinta-feira, outubro 07, 2010
Pastel de massa tenra
"Que carinhosa."
Quando nao temos motivos para pensar no dia de amanha, conseguimos cozinhar os piores e os melhores ingredientes de nós próprios no recheio de um pastel. E, quando menos esperamos, surpreendemo-nos a envolve-lo na massa tenra que teimamos em guardar em segredo nas gavetas mais inacessíveis da cozinha.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Bolo das 27 camadas
Ao todo sao 27 camadas de tudo, intercaladas num bolo so. Camadas de surpresas, camadas de cliche, camadas de memorias... com recheio de coincidencia.
Este 'e o tipo de bolo que levo 'a mesa quando eu propria menos espero. E tem sempre um gostinho especial. Talvez porque nunca estou 'a espera de o cozinhar. Chamemos-lhe o bolo da sorte.
Sao poucos os que conhecem esta receita ja antiga, escrita algures num caderninho perdido no bau das minhas recordacoes gastronomicas. Mas os que tiveram a oportunidade de a ler, sabem que o gosto de um assento numero 27 no aviao que me trouxe ate Buenos Aires vai ser algo que nao desaparecera tao depressa da minha boca.
Este 'e o tipo de bolo que levo 'a mesa quando eu propria menos espero. E tem sempre um gostinho especial. Talvez porque nunca estou 'a espera de o cozinhar. Chamemos-lhe o bolo da sorte.
Sao poucos os que conhecem esta receita ja antiga, escrita algures num caderninho perdido no bau das minhas recordacoes gastronomicas. Mas os que tiveram a oportunidade de a ler, sabem que o gosto de um assento numero 27 no aviao que me trouxe ate Buenos Aires vai ser algo que nao desaparecera tao depressa da minha boca.
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