sábado, fevereiro 05, 2011

À mesa com o solitário (II)

Ele: Mas que raio percebes tu disso?
Eu: Mais do que muita gente possa imaginar.
Ele: (silêncio)
Eu: (silêncio)
Ele: Tens uns olhos de anjo magníficos. Só ainda não consegui perceber que diabo se esconde por trás deles.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

À mesa com o solitário (I)

Eu: O rádio fica sempre ligado?
Ele: Gosto do buliço, preciso dele para dormir. Tu gostas do silêncio?
Eu: Cada vez mais.
Ele: Então tenta ouvir com atenção a melodia que ele tem. O som do silêncio consegue ser um barulho verdadeiramente ensurdecedor.

É sempre naquela esquina que nos cruzamos. Invariavelmente convida-me a entrar e sentar. Às vezes são apenas umas frases rápidas com uma promessa de voltar noutro dia. Outras, deixo-me ficar durante horas, entre o cheiro a cigarros e a madeira velha. Não há comida nesta refeição a dois. Mas volto sempre de barriga cheia.

domingo, janeiro 30, 2011

Olhar de mel

"O teu olhar mudou"

Num curto espaço de tempo, duas bocas dizem-me a mesma frase. Duas bocas, que embora distintas, conseguiram olhar-me verdadeiramente nos olhos e ver o que há para lá do tom de mel. O fel. E soube-me bem.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Tosta mista

Saem do frigorífico espontaneamente. Ambos permaneciam em tupperwares distintos, fechados há longos meses em prateleiras diferentes, num vácuo imposto pela culinária da vida... e conscientemente por eles próprios.
Encontram-se na bancada da cozinha, onde trocam um sorriso. Cúmplice. Verdadeiro. Daqueles que aquece uma cozinha sem sequer ser preciso acender o fogão.
Deixam-se envolver pelas migalhas de um miolo repleto de histórias perdidas, compreensões mútuas, vontades esquecidas. Enredados por uma côdea dura que há muito teimava em não se desfazer. E, afinal, era tão simples. Tão complexamente natural.
No escuro da tostadeira abraçam-se com uma única palavra. E não há mais manteiga entre eles. Na realidade, há muito que isso deixou de ser preciso.
O queijo derrete-se e envolve o fiambre, que sente a sua tez cada vez mais rosada. Não de prazer. Sim de uma qualquer emoção que nenhum livro de receitas algum dia poderá explicar.
Sem que nenhum dos dois se mexa ou tenha necessidade de acrescentar qualquer erva aromática, deixam-se ficar assim até que o botão off desliga automaticamente a tostadeira. Nenhum dos dois tem noção do momento exacto em que isso acontece, embora ambos soubessem que seria inevitável. E lentamente a tosta mista vai ficando novamente rija. Com a certeza, porém, de que o calor estará lá sempre. Mesmo dentro do frigorífico.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Cérebro com couve lombarda

O meu cérebro tem andado enrolado nas mil folhas de couve lombarda que tenho na bancada da cozinha à espera de serem cozinhadas. Aceito desafios. Atiro-me a eles sem dar tempo a mim própria de ficar em banho maria por um bocado. A vida não pára e eu também não, repito. Mas de repente a panela de pressão apita com força e faz-nos lembrar que não somos de ferro.

Ainda não perdi a cabeça. Mas já esteve mais longe.



quinta-feira, dezembro 30, 2010

Sonhos amarelos

Passaram-se alguns anos desde a última vez que os sonhos amarelos me visitaram pela calada da noite. Com o ano a terminar, eles fervilharam uma vez mais na minha cabeça, sem receita prévia.
Acordei de manhã e ainda lhe sentia o cheiro. Não sei se era a bolos ou apenas ao forno da minha culinária da vida. Mas o cheiro estava preso às minhas narinas.
Havia uma grande portada que se abria de par em par para me deixar entrar. Os raios de sol furavam tranquilamente a penumbra densa e senti um calor no peito. Não é grande, apenas espaçosa. Ouvi risos e correrias. Fechei os olhos e deixei-me invadir pelo maior dos amores. Não consigo ver-me a mim. Não sei se sou velha, se sou nova. Serão aqueles risos dos meus filhos ou dos meus netos? Não sei. Só sei que sinto paz. E que é ali que pertenço. À minha (eterna) casa amarela.

domingo, dezembro 26, 2010

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Salada russa

Não consigo precisar em que momento toda a salada ficou fria... para nunca mais voltar atrás. Não sei quando é que todos os meus pedacinhos cortados com alguma infantilidade deixaram de ser formas curiosas na travessa, para passarem a pedaços fortes, cozidos, secos, sem deixarem contudo de acreditar na maionese que os vai acariciando e tornando-os macios.
É difícil lembrar-me da hora em que abri o frigorífico da alma para tornar a minha salada russa em algo que, pouco a pouco, deixou de ser fumegante. Quando é que deixei de ceder a jogos e manipulações, a desilusões com acompanhamentos surpreendentemente mal-formados.
Mesmo acompanhada à mesa, entrei sozinha nesta eterna confeção. Porque é assim que sempre estarei.
E com um sorriso.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Porta da cozinha (re)aberta

Sei que vos parece que tenho estado ausente. Que não tem havido refogados que vos cheguem ao nariz vindos daqui. Mas a cozinha não tem estado parada… apenas encostei a porta principal devagarinho para simplesmente me permitir abrir a das traseiras com toda a calma: