“Forte, intenso, provocador, potente, garrido”, li no blogue de um escanção. Chama-se Ilógico
e é natural da margem sul do rio. Com aroma de frutos vermelhos, é um tinto
encorpado, com boa acidez e elegância. Muita elegância. Envolve-me com a sua consistência, com o travo inconfundivel que
apetece ao almoço, ao jantar, à ceia. A qualquer hora do dia. O seu gosto perdura na língua e é impossível beber só um copo. A minha boca pede a
garrafa toda. Sem pudores. E a cada trago que bebo diariamente, sinto-me
mulher. Chico Buarque explica porquê:
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sexta-feira, agosto 03, 2012
segunda-feira, julho 30, 2012
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
Juntar frigideiras e panelas
Houve alturas em que na minha cozinha estavam tachos a mais. Demasiado barulho, cheiros e sabores que não tinham harmonia. Mudei-me para outra e comecei a cozinhar sozinha. E, por algum tempo, soube bem. Muito bem. Diria mesmo que essencial. Mas cozinhar apenas para um não faz sentido e isso só percebi quando à mesa se começaram a juntar dois pratos. Com saborosa regularidade. “Cozinhar é um ato de amor”, escreveu Mia Couto e leu-se por aqui um dia. E misturar a única frigideira que sobreviveu à minha cozinha vazia, com um trem de panelas que tem também muito amor para levar ao lume, nunca me fez tanto sentido. Uma nova cozinha aguarda-nos. E eu volto a ter vontade de cozinhar. Amor.
quarta-feira, novembro 23, 2011
Talhadas de melancia

É uma fruta de uma simplicidade tão grande, que se torna complexa. Que nos refresca todos os sentidos, que nos aquece os cantos da boca que não se cansa de a trincar repetidamente, com toda a urgência mas sem a ansiedade de outros frutos de gula. Leve para o estômago, tem também activos poderes nas questões de circulação no coração. É sumarenta, com aquele tipo de sumo que nos escorre pelo queixo e se cola à pele de uma forma tão natural, mas que dificilmente de lá sairá. E eu, que descobri finalmente as maravilhas de se andar lambuzada de melancia, não tenciono usar o guardanapo.
terça-feira, novembro 01, 2011
quarta-feira, setembro 21, 2011
Caril de amor
"Ela vale tudo para mim. Tornou-se na razao da minha vida. Vou casar por amor"
O caril, de uma casta mais baixa de ingredientes que a da sua amada, sorria enquanto me contava isto com todo o seu entusiasmo. Nao havia pitada de picante nas suas palavras. Mas deixou-me a alma a arder.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.
Prometo a mim mesma.
quarta-feira, agosto 10, 2011
Gelado de morango e baunilha
O calor aperta e torna-se urgente tornar mais refrescantes as refeições. Pela cozinha mantém-se a velha máxima da simplicidade dos sabores e opta-se por deixar entrar no menu uma sobremesa nova: taça de gelado, com mistura de morango e baunilha.
A taça é, inevitavelmente, transparente. Ambas as bolas de gelado assim o preferem. Deixam-se derreter entre colheradas, misturando os seus sabores. Não há pedaços de amêndoa ralada escondidos pelo meio, nem muito menos toppings densos. São apenas o morango e a baunilha. Diferentes nas suas confecções, mas ambos doces e frescos. Com vontade de se deixarem saborear.
E, no verão, isto sabe muito bem.
segunda-feira, julho 25, 2011
Carne de porco à la Pauliteira
É difícil resistir-lhe: o porco tem os seus encantos.
Não é que seja obrigatoriamente bonito. Mas seja no lombo, nos pezinhos, nas bochechas, nas orelhas… É inegável o seu gosto guloso. Daqueles que nos faz ficar com os cantos da boca gordurosos, salgados, com vontade de lamber até à última réstia de sabor.
Contudo, não se pode confiar na sua aparência consistente, algo que só se aprende ao fim de muitas queimadelas no churrasco da vida. O porco é porco. E sempre o será. Faz parte da sua essência e não somos nós que, ao degustá-lo nas delícias que nunca passarão do espeto, o vamos mudar. Ele será sempre prejudicial para o nosso estômago, pele, artérias. E coração.
Ainda não me fartei dos galos do campo, mas para porcos já não há espaço. Já tive a minha dose.
Não é que seja obrigatoriamente bonito. Mas seja no lombo, nos pezinhos, nas bochechas, nas orelhas… É inegável o seu gosto guloso. Daqueles que nos faz ficar com os cantos da boca gordurosos, salgados, com vontade de lamber até à última réstia de sabor.
Contudo, não se pode confiar na sua aparência consistente, algo que só se aprende ao fim de muitas queimadelas no churrasco da vida. O porco é porco. E sempre o será. Faz parte da sua essência e não somos nós que, ao degustá-lo nas delícias que nunca passarão do espeto, o vamos mudar. Ele será sempre prejudicial para o nosso estômago, pele, artérias. E coração.
Ainda não me fartei dos galos do campo, mas para porcos já não há espaço. Já tive a minha dose.
terça-feira, julho 12, 2011
Alho e cebola moídos
Cebola – Achas que dou a ideia de ser fácil de refogar?
Alho – Não mesmo. Acho sim que tens imensa facilidade em falar de comida, e isso desarma. Mas a ti ninguém te leva para a travessa. És tu que escolhes quem deixas lá pousar.
O alho e a cebola estão precisamente deitados na travessa de ir ao forno enquanto têm esta conversa. Descascados. Moídos pelas horas de confecção daquele eterno refogado a que nenhum sabe dizer que não de tempos a tempos. Ele conhece cada centímetro dela. Reconhece pelo toque a sua textura macia. Sabe-lhe de cor o cheiro. E ela gosta disso.
Apaziguada pelo sabor quente do alho que talvez melhor a conhece, sem as habituais mil camadas de casca, ela deixa-se embalar pelo abraço e adormece. O apito da panela de pressão, onde o molho de grelos da cozinha ao lado teimava em cozer a paciência, parece por fim parar. Pelos menos nos seus ouvidos e no seu coração. O seu próprio sumo não a faz chorar. O alho não deixa. E uma cebola, que é cebola, não deita lágrimas pelo que não vale a pena.
O alho e a cebola estão precisamente deitados na travessa de ir ao forno enquanto têm esta conversa. Descascados. Moídos pelas horas de confecção daquele eterno refogado a que nenhum sabe dizer que não de tempos a tempos. Ele conhece cada centímetro dela. Reconhece pelo toque a sua textura macia. Sabe-lhe de cor o cheiro. E ela gosta disso.
Apaziguada pelo sabor quente do alho que talvez melhor a conhece, sem as habituais mil camadas de casca, ela deixa-se embalar pelo abraço e adormece. O apito da panela de pressão, onde o molho de grelos da cozinha ao lado teimava em cozer a paciência, parece por fim parar. Pelos menos nos seus ouvidos e no seu coração. O seu próprio sumo não a faz chorar. O alho não deixa. E uma cebola, que é cebola, não deita lágrimas pelo que não vale a pena.
E ela gosta disso.
terça-feira, junho 28, 2011
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