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quarta-feira, julho 18, 2012

Secretos

Secretos. Suculentos, daqueles que se desfazem na boca, mas cujo sabor perdura. Secretos daqueles em forma de mãos dadas. De corpos entrelaçados a dormir, na urgência de sentir. De beijos, mil beijos sem pensar. De corações deliciosamente pirosos desenhados no espelho da casa-de-banho. De noites de sofá e manta só pelo prazer de estarmos os dois. Fosse onde fosse. Secretos de passeios à beira mar. De pequenos-almoços na cama. De jantares à luz da vela. De danças espontâneas bochecha com bochecha. Secretos de amor. De confiança. De chamar “amor” a alguém sem pudores. De dizer “amo-te” em recados rabiscados, em sms que nunca são apagados, de manhã, à noite, na entrada, no prato principal e na sobremesa.

Demorei muito tempo até conseguir assumir a mim mesma que gostava de gostar destes secretos. Que eram tudo o que eu queria.  Mas valeu a pena a espera.


quarta-feira, maio 30, 2012

Receita para viver um grande amor


"Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?"

Vinicius de Moraes


sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Juntar frigideiras e panelas

Houve alturas em que na minha cozinha estavam tachos a mais. Demasiado barulho, cheiros e sabores que não tinham harmonia. Mudei-me para outra e comecei a cozinhar sozinha. E, por algum tempo, soube bem. Muito bem. Diria mesmo que essencial. Mas cozinhar apenas para um não faz sentido e isso só percebi quando à mesa se começaram a juntar dois pratos. Com saborosa regularidade. “Cozinhar é um ato de amor”, escreveu Mia Couto e leu-se por aqui um dia. E misturar a única frigideira que sobreviveu à minha cozinha vazia, com um trem de panelas que tem também muito amor para levar ao lume, nunca me fez tanto sentido. Uma nova cozinha aguarda-nos. E eu volto a ter vontade de cozinhar. Amor.


quarta-feira, novembro 23, 2011

Talhadas de melancia


É uma fruta de uma simplicidade tão grande, que se torna complexa. Que nos refresca todos os sentidos, que nos aquece os cantos da boca que não se cansa de a trincar repetidamente, com toda a urgência mas sem a ansiedade de outros frutos de gula. Leve para o estômago, tem também activos poderes nas questões de circulação no coração. É sumarenta, com aquele tipo de sumo que nos escorre pelo queixo e se cola à pele de uma forma tão natural, mas que dificilmente de lá sairá. E eu, que descobri finalmente as maravilhas de se andar lambuzada de melancia, não tenciono usar o guardanapo.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Caril de amor

"Ela vale tudo para mim. Tornou-se na razao da minha vida. Vou casar por amor"

O caril, de uma casta mais baixa de ingredientes que a da sua amada, sorria enquanto me contava isto com todo o seu entusiasmo. Nao havia pitada de picante nas suas palavras. Mas deixou-me a alma a arder.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.

Prometo a mim mesma.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Gelado de morango e baunilha


O calor aperta e torna-se urgente tornar mais refrescantes as refeições. Pela cozinha mantém-se a velha máxima da simplicidade dos sabores e opta-se por deixar entrar no menu uma sobremesa nova: taça de gelado, com mistura de morango e baunilha.

A taça é, inevitavelmente, transparente. Ambas as bolas de gelado assim o preferem. Deixam-se derreter entre colheradas, misturando os seus sabores. Não há pedaços de amêndoa ralada escondidos pelo meio, nem muito menos toppings densos. São apenas o morango e a baunilha. Diferentes nas suas confecções, mas ambos doces e frescos. Com vontade de se deixarem saborear.

E, no verão, isto sabe muito bem.