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segunda-feira, dezembro 15, 2014

Carne vs vegetais

Ninguém que realmente goste de comer carne passa para o lado vegetariano da vida de ânimo leve. A decisão custa, mas quando os prós e contras chegam à balança, os resultados dão que pensar.

A carne sai cara e muitas vezes nem sequer dá à arte de a cozinhar a sua merecida dignidade. Quando consumida durante demasiados anos seguidos, a conta final pode tornar intolerável qualquer tentativa de gestão culinária da vida. Mas sabe bem e chega mesmo a ser viciante. 

Por mais que a saúde reclame há sempre espaço no estomago para mais um bocadinho, mesmo quando os acompanhamentos mais indigestos insistem em provocar azia. Não importa que tenha de ser cozinhada a correr e que na maioria das vezes a tenhamos de comer quase em sangue. Quando se gosta, gosta. E a capacidade de a consumir, ora bem, ora mal passada, parece inesgotável. Até um dia.

E esse dia chegou. A perspectiva de uma gestão mais digna da cozinha ditou grande parte da decisão. A necessidade de desintoxicação também. A saúde agradece, a carteira também. A língua, essa já consegue estalar ao experimentar novos sabores. Sempre teve essa capacidade. O estomago adapta-se, entusiasma-se, aprende a comer com calma, sem se sentir culpado por isso. Mas a verdade é que quem gosta de carne, gostará sempre. E de uma forma ou de outra ela vai estar sempre presente no meu menu. Mesmo que já não seja o prato principal.


sexta-feira, agosto 10, 2012

Cozinha de rua


Porque há ruas onde tudo ganha um novo paladar. Onde sabores se misturam num só e mudam o rumo de toda a culinária da vida. Onde sabe sempre bem voltar.


segunda-feira, julho 30, 2012

quarta-feira, julho 18, 2012

Secretos

Secretos. Suculentos, daqueles que se desfazem na boca, mas cujo sabor perdura. Secretos daqueles em forma de mãos dadas. De corpos entrelaçados a dormir, na urgência de sentir. De beijos, mil beijos sem pensar. De corações deliciosamente pirosos desenhados no espelho da casa-de-banho. De noites de sofá e manta só pelo prazer de estarmos os dois. Fosse onde fosse. Secretos de passeios à beira mar. De pequenos-almoços na cama. De jantares à luz da vela. De danças espontâneas bochecha com bochecha. Secretos de amor. De confiança. De chamar “amor” a alguém sem pudores. De dizer “amo-te” em recados rabiscados, em sms que nunca são apagados, de manhã, à noite, na entrada, no prato principal e na sobremesa.

Demorei muito tempo até conseguir assumir a mim mesma que gostava de gostar destes secretos. Que eram tudo o que eu queria.  Mas valeu a pena a espera.


quarta-feira, maio 30, 2012

Receita para viver um grande amor


"Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?"

Vinicius de Moraes


quarta-feira, novembro 23, 2011

Talhadas de melancia


É uma fruta de uma simplicidade tão grande, que se torna complexa. Que nos refresca todos os sentidos, que nos aquece os cantos da boca que não se cansa de a trincar repetidamente, com toda a urgência mas sem a ansiedade de outros frutos de gula. Leve para o estômago, tem também activos poderes nas questões de circulação no coração. É sumarenta, com aquele tipo de sumo que nos escorre pelo queixo e se cola à pele de uma forma tão natural, mas que dificilmente de lá sairá. E eu, que descobri finalmente as maravilhas de se andar lambuzada de melancia, não tenciono usar o guardanapo.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Salada de folhas renascidas

"AHORA me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.
Yo voy a cerrar los ojos
Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.
Una es el amor sin fin.
Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.
Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.
En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.
La quinta cosa son tus ojos,
Amor mío, bienamado,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.
Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.
Ahora si quieren se vayan.
He vivido tanto que un día
tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra:
mi corazón fue interminable.
Pero porque pido silencio
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.
Sucede que soy y que sigo.
No será, pues, sino que adentro
de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen
la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas
la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.
Se trata de que tanto he vivido
que quiero vivir otro tanto.
Nunca me sentí tan sonoro,
nunca he tenido tantos besos.
Ahora, como siempre, es temprano.
Vuela la luz con sus abejas.
Déjenme solo con el día.
Pido permiso para nacer."
de Pablo Neruda

quarta-feira, agosto 10, 2011

Gelado de morango e baunilha


O calor aperta e torna-se urgente tornar mais refrescantes as refeições. Pela cozinha mantém-se a velha máxima da simplicidade dos sabores e opta-se por deixar entrar no menu uma sobremesa nova: taça de gelado, com mistura de morango e baunilha.

A taça é, inevitavelmente, transparente. Ambas as bolas de gelado assim o preferem. Deixam-se derreter entre colheradas, misturando os seus sabores. Não há pedaços de amêndoa ralada escondidos pelo meio, nem muito menos toppings densos. São apenas o morango e a baunilha. Diferentes nas suas confecções, mas ambos doces e frescos. Com vontade de se deixarem saborear.

E, no verão, isto sabe muito bem.

quinta-feira, julho 28, 2011

Rota das especiarias


Na cozinha ouve-se novamente o tic-tac do relógio de parede. Questiona-se. Fazem-se planos. E torna-se imperativo uma nova viagem até sabores distantes e distintos.
Volta o friozinho na barriga. A curiosidade pelo desconhecido. A vontade inexplicável de absorver cada novo cheiro, cor, textura, sabor. Sei que desta vez vão ser muitas especiarias. Tantas. E é com satisfação que guardo o bloco de notas soltas para novas receitas no bolso… e começo a preparar-me para voltar a ir ver o mundo fora das paredes da minha culinária da vida.

quinta-feira, maio 05, 2011

Panela velha-nova

Há algo de quase mágico em encontrarmos uma panela velha e pormo-nos a pensar em todos os novos petiscos que nela vamos conseguir cozinhar. Não interessa que já tenha passado de mão em mão, que tenha furos ou o fundo queimado. É nossa e isso faz toda a diferença.
A bancada da cozinha cobre-se de ideias, cores, formas e cheiros. Pitadas disto e daquilo. Inúmeros temperos tantas vezes já experimentados, mas que nesta panela velha - que é para mim nova - irão ter um sabor especial. Sabor a (re)começo.

domingo, março 13, 2011

Cozido à portuguesa

Movidos pelo sabor comum do descontentamento, trezentos mil ingredientes à rasca uniram forças na panela de pressão. Aos vegetais ainda tenros juntaram-se as carnes já enrijecidas por vidas difíceis. A fervura levantou rapidamente e os (dis)sabores de todos estes alimentos misturaram-se de uma forma única. Com emoção.
É certo que não é fácil juntar, de forma harmoniosa, alimentos distintos numa só receita. Houve muita gente com dúvidas sobre o sucesso do resultado final. Houve muita gente que desejava secretamente que acabasse numa tremenda indigestão ou azias agressivas. Mas não. E depois de ver morcela da extrema-direita lado a lado com chouriço de sangue da extrema-esquerda sem haver molho na travessa, consegui perceber o que realmente significa viver numa cozinha pacífica.
Foi especial. Mas só quem percebeu a tempo que este seria um cozido à portuguesa histórico e optou por fazer parte dele é que poderá compreender o significado destas duas palavras.