O temporizador apita, dando
por findas as longas horas de cozedura em lume brando. Os polvos mexem-se
lentamente dentro do tabuleiro. Entrelaçam os tentáculos como se não o tivessem
ouvido e deixam-se embalar naquele caldo de ternura em que estão envoltos. Pela
porta do forno vêem-se os primeiros raios de luz que batem na janela da
cozinha. Mas eles não querem sair daquele calor que os torna mais tenros.
Rebolam para um lado do tabuleiro, depois para o outro. As ventosas da vontade prendem-nos e eles gostam dessa sensação. A posição nem sempre é a mais confortável, mas nenhum deles quer
saber. Aquele calor apura-os. Por vezes a malagueta que ficou a boiar no caldo de ternura desde a hora
em que foram postos ao lume larga mais um pouco do seu aroma picante. E mexem-se
mais um pouco no tabuleiro. Por vezes é simplesmente na inércia dos sabores semi-adormecidos
que se deixam ficar. E é naqueles momentos, em que o silêncio da cozinha só é
quebrado pelas pitadas matinais de beijos sonolentos com tentáculos
entrelaçados, que os polvos sentem que lá fora todos os refogados do mundo
pararam. E é com muito esforço que se largam. Mesmo sabendo que depois de enfrentarem
os pratos do dia, é ali que se voltarão a encontrar novamente.
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segunda-feira, fevereiro 04, 2013
domingo, novembro 04, 2012
Cachorro quente
É quando menos esperamos que este tipo de
pratos acontecem. Aparecem-nos na cozinha, sem aviso prévio e conquistam-nos o
estômago. É certo que há cachorros e cachorros, mas o que agora é
prato principal desta cozinha é bem quentinho. Daqueles ideais para começar o
dia com umas belas lambidelas… e também para acabar, numa refeição demorada
entre as mantas do sofá. Daquelas que viciam e se tornam obrigatórias no menu. Porque, por este lados, o cachorro quente passou
a ser uma receita de amor. Para todos os dias.
quarta-feira, setembro 26, 2012
Champanhe com gelado de morango e baunilha
Na cozinha só se ouve o tic-tac do relógio em tom de contagem descrescente. Dentro de poucas horas tiro o avental de todas as obrigações profissionais e passo a cozinhar apenas por lazer: com o coração. O cérebro, esse vai de férias... e eu fico agarradinha a uma flute de champanhe, recheada a gelado de morango e baunilha!
sexta-feira, agosto 10, 2012
Cozinha de rua
Porque há ruas onde tudo ganha um novo paladar.
Onde sabores se misturam num só e mudam o rumo de toda a culinária da vida. Onde sabe sempre bem voltar.
sexta-feira, agosto 03, 2012
Tinto Ilógico
“Forte, intenso, provocador, potente, garrido”, li no blogue de um escanção. Chama-se Ilógico
e é natural da margem sul do rio. Com aroma de frutos vermelhos, é um tinto
encorpado, com boa acidez e elegância. Muita elegância. Envolve-me com a sua consistência, com o travo inconfundivel que
apetece ao almoço, ao jantar, à ceia. A qualquer hora do dia. O seu gosto perdura na língua e é impossível beber só um copo. A minha boca pede a
garrafa toda. Sem pudores. E a cada trago que bebo diariamente, sinto-me
mulher. Chico Buarque explica porquê:
segunda-feira, julho 30, 2012
quarta-feira, novembro 23, 2011
Talhadas de melancia

É uma fruta de uma simplicidade tão grande, que se torna complexa. Que nos refresca todos os sentidos, que nos aquece os cantos da boca que não se cansa de a trincar repetidamente, com toda a urgência mas sem a ansiedade de outros frutos de gula. Leve para o estômago, tem também activos poderes nas questões de circulação no coração. É sumarenta, com aquele tipo de sumo que nos escorre pelo queixo e se cola à pele de uma forma tão natural, mas que dificilmente de lá sairá. E eu, que descobri finalmente as maravilhas de se andar lambuzada de melancia, não tenciono usar o guardanapo.
terça-feira, novembro 01, 2011
quarta-feira, setembro 21, 2011
Caril de amor
"Ela vale tudo para mim. Tornou-se na razao da minha vida. Vou casar por amor"
O caril, de uma casta mais baixa de ingredientes que a da sua amada, sorria enquanto me contava isto com todo o seu entusiasmo. Nao havia pitada de picante nas suas palavras. Mas deixou-me a alma a arder.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.
Em plena India apercebo-me (mais uma vez) que nem todas as cozinhas tem o direito a amar. E que quem o tem, esquece-se (demasiadas vezes) da sua importancia. Eu nao vou esquecer.
Prometo a mim mesma.
segunda-feira, agosto 22, 2011
Salada de folhas renascidas
"AHORA me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.
Ahora se acostumbren sin mí.
Yo voy a cerrar los ojos
Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.
cinco raices preferidas.
Una es el amor sin fin.
Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.
Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.
En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.
redondo como una sandía.
La quinta cosa son tus ojos,
Amor mío, bienamado,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.
Amor mío, bienamado,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.
Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.
Es casi nada y casi todo.
Ahora si quieren se vayan.
He vivido tanto que un día
tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra:
mi corazón fue interminable.
tendrán que olvidarme por fuerza,
borrándome de la pizarra:
mi corazón fue interminable.
Pero porque pido silencio
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.
no crean que voy a morirme:
me pasa todo lo contrario:
sucede que voy a vivirme.
Sucede que soy y que sigo.
No será, pues, sino que adentro
de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen
la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas
la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.
de mí crecerán cereales,
primero los granos que rompen
la tierra para ver la luz,
pero la madre tierra es oscura:
y dentro de mí soy oscuro:
soy como un pozo en cuyas aguas
la noche deja sus estrellas
y sigue sola por el campo.
Se trata de que tanto he vivido
que quiero vivir otro tanto.
que quiero vivir otro tanto.
Nunca me sentí tan sonoro,
nunca he tenido tantos besos.
nunca he tenido tantos besos.
Ahora, como siempre, es temprano.
Vuela la luz con sus abejas.
Vuela la luz con sus abejas.
Déjenme solo con el día.
Pido permiso para nacer."
Pido permiso para nacer."
de Pablo Neruda
quarta-feira, agosto 10, 2011
Gelado de morango e baunilha
O calor aperta e torna-se urgente tornar mais refrescantes as refeições. Pela cozinha mantém-se a velha máxima da simplicidade dos sabores e opta-se por deixar entrar no menu uma sobremesa nova: taça de gelado, com mistura de morango e baunilha.
A taça é, inevitavelmente, transparente. Ambas as bolas de gelado assim o preferem. Deixam-se derreter entre colheradas, misturando os seus sabores. Não há pedaços de amêndoa ralada escondidos pelo meio, nem muito menos toppings densos. São apenas o morango e a baunilha. Diferentes nas suas confecções, mas ambos doces e frescos. Com vontade de se deixarem saborear.
E, no verão, isto sabe muito bem.
sexta-feira, julho 01, 2011
A refeição completa
Há poucos dias, alguém que muito admiro disse-me: "não queiras menos do que a refeição completa". Olho para os últimos 30 anos da sua culinária da vida e vislumbro aquilo que eu tento a todo o custo esconder. Refogados à parte, na realidade é isto que eu quero. Simplesmente isto:
terça-feira, junho 28, 2011
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