Nos últimos dias falaram-me muito de café turco. Reza a lenda, mantida ainda por tanta gente nos dias de hoje, que o futuro pode ser lido na borra que fica no fim. Mas aqui na cozinha o que gostamos mesmo de beber é o café cósmico... onde o creme fala mais alto e revela aquilo que nós somos e queremos. E a vontade de beber o mundo é a sina que há no meu.
segunda-feira, agosto 20, 2012
terça-feira, agosto 14, 2012
JB Reserva 15 anos
Olho para a garrafa e parece-me um néctar divino, enviado pelos deuses directamente
para a bancada da cozinha. Nunca fui fã de whisky, mas descubro-lhe o potencial
numa noite em que tudo está tingido de cinzento. Consta que é um JB Reserva 15
anos. Os apreciadores dizem que é bom e eu, ao bebe-lo pela primeira vez, tenho de admitir
que o gosto me surpreende. Sinto-o a queimar-me as gengivas e as bochechas.
Deixo-o inundar a minha boca até já não arder e ficar simplesmente dormente.
Aquele gosto intenso torna-se suave. Assim como a terrível dor de dentes que
há dias sobrevivia a doses mais do que recomendadas de analgésico.
Nunca pensei recorrer aos 40% de álcool de um whisky com fins terapêuticos para o corpo. Para a alma. talvez. Mas o que é certo é que fiquei fã de JB. E por fim
consegui dormir.
sexta-feira, agosto 10, 2012
Cozinha de rua
Porque há ruas onde tudo ganha um novo paladar.
Onde sabores se misturam num só e mudam o rumo de toda a culinária da vida. Onde sabe sempre bem voltar.
quinta-feira, agosto 09, 2012
quarta-feira, agosto 08, 2012
Pêras com creme Nívea?
Há gostos gastronómicos estranhos, é certo. E se havia coisa que eu gostava em miúda era de ir para a praia. A pele bem salgada, os dedos engelhados, eu aos saltos, incansável dentro do meu fato de banho com folhinhos cor-de-rosa. E onde está a parte estranha disto? Calma, já lá chegamos. Lembro-me de chegar a casa e ir para o habitual banho da praxe tirar os quilos de areia de cima. E depois vinha o creme Nívea, aquele que dá para o corpo todo e que, passados quase 30 anos continua a ser o de eleição lá em casa. A minha mãe lambuzava-me de hidratação, enquanto eu própria, ao mesmo tempo, me lambuzava de gula a trincar pêras.
O sumo invariavelmente escorria-me pelo queixo e misturava-se com o creme. A mistura dos dois reunia-se à passagem da minha pequenita língua, em tentativas vãs de limpar a boca. Gostava daquela mistura de sabores. Tanto, que um dia dei por mim a barrar uma pêra com Nivea e a comê-la com elevada satisfação. Foi nesse momento que, do alto dos meus 5 ou 6 anos, percebi o que era ser gourmet. Que não há nada como ser criativo na cozinha. Arriscar. Sair da caixa e experimentar o que não é óbvio. Que as misturas mais improváveis podem dar certo. Que a culinária da vida não se resume a um monte de receitas já escritas por outros.
E o que é certo é que ainda hoje gosto muito daquelas pêras com creme. E o meu estomago nunca refilou.
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terça-feira, agosto 07, 2012
Cozinha pouco católica
É por estas e por outras que na minha cozinha não se cozinham hóstias. Somos pouco católicos (entre outras) e gostamos muito do primeiro pecado capital. Porque lavagens cerebrais e dogmas incoerentes, onde reinam a culpa e o medo em prol da suposta protecção divina, não têm espaço entre estas panelas sagradas da vida. Venha a nós a gula e seja feita a nossa vontade de cozinhar os mais deliciosos petiscos. Sem obrigações.
segunda-feira, agosto 06, 2012
Torradas de pão de forma
Só quem nunca teve a sorte de as comer é que pode dizer que este pão é artificial. Torradas de Panrico bem tostadas do sol, com um
bocadinho da manteiga derretida do meu coração em cima e uma dose de doçura de morango, para arrematar, são de comer e chorar por mais. Salpicado pelo sal do mar ou pelas Estrelitas dessa
grande tijela que é o céu no meio do campo, o pão de forma é a comida oficial
deste verão. Porque andar com o pé na estrada faz bem ao estomago.
sexta-feira, agosto 03, 2012
Tinto Ilógico
“Forte, intenso, provocador, potente, garrido”, li no blogue de um escanção. Chama-se Ilógico
e é natural da margem sul do rio. Com aroma de frutos vermelhos, é um tinto
encorpado, com boa acidez e elegância. Muita elegância. Envolve-me com a sua consistência, com o travo inconfundivel que
apetece ao almoço, ao jantar, à ceia. A qualquer hora do dia. O seu gosto perdura na língua e é impossível beber só um copo. A minha boca pede a
garrafa toda. Sem pudores. E a cada trago que bebo diariamente, sinto-me
mulher. Chico Buarque explica porquê:
quinta-feira, agosto 02, 2012
Mel e piripiri
O segredo
para elaborar um prato docemente picante até é simples: dedicação, imaginação e
seriedade, em doses talvez ainda maiores do que as usadas noutros temperos. E
este tempero, com sabor a mulheres e sexo, demorou muito tempo a fazer. Porque não é no microondas que se fazem refeições sobre a vida real.
Na realidade, foram
precisas muitas horas a ouvir, a anotar e a escrever histórias. Depois foi
preciso cozinhá-las em lume brando, sempre a mexer até conseguir chegar a uma
consistência que fizesse jus ao sabor condutor intenso da vida de uma mulher,
que acabava por contar as peripécias de tantas outras. Cozinheiras da vida como
eu. Como vocês, mulheres, que estejam a ler isto. Filhas, mães, avós, amigas,
conhecidas, colegas, casadas, solteiras, enamoradas, amantizadas, tímidas,
ousadas, discretas, espampanantes. Mulheres reais. Com mel e piripiri.
Nunca tinha
escrito sobre esta sopa de letras picantes (e não só) por aqui, mas o verão
chegou à cozinha e achei por bem deixar a sugestão de leitura gulosa. Diretamente
do meu fogão para as vossas lancheiras de férias: "Os Segredos da Maleta Vermelha".
"Abra a maleta e venha espreitar um mundo feito de mel e piripiri que rompe com
falsos mitos, onde cabem histórias reais de gente empreendedora,
algumas gargalhadas e muito prazer sem complexos"
falsos mitos, onde cabem histórias reais de gente empreendedora,
algumas gargalhadas e muito prazer sem complexos"
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quarta-feira, agosto 01, 2012
Pizza com sabor a Oriente
Por falar em verão e férias, a minha cozinha começou a cheirar a lahmacun. É feita no forno a lenha, leva molho de tomate e carne picada, mas não tem nada de italiana. Parece uma pizza, mas não é. Pode também parecer, à partida, bem ocidental, mas no fundo tem um paladar mais do oriente. E consta que é uma das iguarias que vai passar pelo meu menu quando fizer a minha merecida pausa anual. Lá para os lados da Turquia.
Penso nisto enquanto folheio o livro de receitas turcas e concluo que gosto destes pratos onde nem tudo é o que parece e os sabores se misturam lentamente após se darem a conhecer. Porque na culinária da vida, os melhores pratos são aqueles que se vão descobrindo aos poucos. Com avidez constante.
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