
Há algo de impiedoso no relógio do fogão. Como se nos tirasse a espontaneidade para temperar a bel-prazer e mudar o rumo do sabor final. Sabor que, pensando bem, também pode ser alterado já quando a comida chega à mesa e fica à mercê do galheteiro.
Por estes lados o tic-tac tem sido constante, 24 horas por dia, como se na minha cozinha não houvesse mais tempo e eu tivesse de decidir um menu gourmet como quem manda vir um prego no pão. Não gosto. Volto ao lume brando e dou tempo a mim mesma. Faço as malas e penso em como, por vezes, é bom partir. Pela frente, quando voltar, tenho todo o tempo do mundo.