Na minha cozinha sempre se gostou dos nasceres do sol. Mas quer a vida que os maiores refogados sejam levados ao lume depois de ele se pôr.
sexta-feira, abril 29, 2011
domingo, abril 24, 2011
Mistura de vegetais
Houve quem os descascasse, camada por camada, sem sequer ter a real noção de que o estava a fazer. Mas houve também quem a tivesse toda. O que fazer com essas cascas, empoeiradas pela terra da horta regada a lágrimas escondidas, é que ninguém soube. Nem sei se algum dia saberá.Olho para o caixote ao lado do fogão e vejo os despojos. Amarelecidos por emoções desgastantes. Pisados por mãos descuidadas. Por tantos excessos que nunca serão demasiado excessivos. Por silêncios que dizem mais que mil palavras, mas que apodrecem a frescura que ainda lhes era devida. Cascas de mil cores e texturas. Àsperas. Macias. Rugosas. Cinzentas, mas com genuina cor.
Em pedaços, o miolo de todas ela observa-se. Sabendo que as restantes camadas serão cada vez mais difíceis de arrancar. Não porque não tenha vontade. Apenas porque não consegue ceder a mais mãos daquelas. Nem das outras. Porque o que um dia foi um cesto de verduras resplandecentes na bancada da cozinha é agora um discreto saco de vegetais congelados. Aberto aos temperos da culinária da vida mas eternamente conservado no frio. Com medo de se queimar.
quinta-feira, abril 14, 2011
sábado, abril 02, 2011
sexta-feira, abril 01, 2011
segunda-feira, março 28, 2011
sábado, março 26, 2011
segunda-feira, março 21, 2011
Suflé de poesia
Há suflés tão simples como algumas palavras. No Dia da Poesia, sem sequer ligar o forno sirvo-vos esta massa crua que um dia foi cozinhada por alguém que já sentiu o mesmo no início da Primavera:
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.
Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
"Querer", Pablo Neruda
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.
Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
"Querer", Pablo Neruda
sábado, março 19, 2011
À mesa com o solitário (III)
Ele: Estiveste doente e não me disseste nada. Não percebo.
Eu: Gosto de resolver estas coisas sozinha.
Ele: A última vez que fui ao hospital foi há muitos anos. Fizeram-me exames a tudo. Chegaram à conclusão de que não tenho coração.
Eu: Às vezes é melhor assim.
Ele: (acende o cigarro e abana a cabeça)
Eu: (franzo-lhe o sobrolho)
Ele: Não. Não queiras chegar a essa conclusão com essa idade.
Eu: Gosto de resolver estas coisas sozinha.
Ele: A última vez que fui ao hospital foi há muitos anos. Fizeram-me exames a tudo. Chegaram à conclusão de que não tenho coração.
Eu: Às vezes é melhor assim.
Ele: (acende o cigarro e abana a cabeça)
Eu: (franzo-lhe o sobrolho)
Ele: Não. Não queiras chegar a essa conclusão com essa idade.
domingo, março 13, 2011
Cozido à portuguesa
Movidos pelo sabor comum do descontentamento, trezentos mil ingredientes à rasca uniram forças na panela de pressão. Aos vegetais ainda tenros juntaram-se as carnes já enrijecidas por vidas difíceis. A fervura levantou rapidamente e os (dis)sabores de todos estes alimentos misturaram-se de uma forma única. Com emoção.É certo que não é fácil juntar, de forma harmoniosa, alimentos distintos numa só receita. Houve muita gente com dúvidas sobre o sucesso do resultado final. Houve muita gente que desejava secretamente que acabasse numa tremenda indigestão ou azias agressivas. Mas não. E depois de ver morcela da extrema-direita lado a lado com chouriço de sangue da extrema-esquerda sem haver molho na travessa, consegui perceber o que realmente significa viver numa cozinha pacífica.
Foi especial. Mas só quem percebeu a tempo que este seria um cozido à portuguesa histórico e optou por fazer parte dele é que poderá compreender o significado destas duas palavras.
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