quinta-feira, dezembro 30, 2010
Sonhos amarelos
Acordei de manhã e ainda lhe sentia o cheiro. Não sei se era a bolos ou apenas ao forno da minha culinária da vida. Mas o cheiro estava preso às minhas narinas.
Havia uma grande portada que se abria de par em par para me deixar entrar. Os raios de sol furavam tranquilamente a penumbra densa e senti um calor no peito. Não é grande, apenas espaçosa. Ouvi risos e correrias. Fechei os olhos e deixei-me invadir pelo maior dos amores. Não consigo ver-me a mim. Não sei se sou velha, se sou nova. Serão aqueles risos dos meus filhos ou dos meus netos? Não sei. Só sei que sinto paz. E que é ali que pertenço. À minha (eterna) casa amarela.
domingo, dezembro 26, 2010
Pitadas soltas
Não sei qual das duas pitadas soltas gosto mais. Mas nenhuma é suficiente.
quinta-feira, dezembro 23, 2010
Salada russa
É difícil lembrar-me da hora em que abri o frigorífico da alma para tornar a minha salada russa em algo que, pouco a pouco, deixou de ser fumegante. Quando é que deixei de ceder a jogos e manipulações, a desilusões com acompanhamentos surpreendentemente mal-formados.
Mesmo acompanhada à mesa, entrei sozinha nesta eterna confeção. Porque é assim que sempre estarei.
E com um sorriso.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Porta da cozinha (re)aberta
terça-feira, novembro 16, 2010
O Ingrediente
"Cozinhar não é um serviço", disse ela.
"Cozinhar é um modo de amar os outros"
Mia Couto, em Fio de Missangas
Nunca tive dúvidas: o mais importante ingrediente da culinária da vida é o amor. Aquele que pomos em cada pitada de abraço a um amigo. Em cada raspa de sorriso cúmplice com a nossa mãe. Em cada refogado sincero com o nosso irmão. Em cada retempero do presente com o nosso pai. Em cada olhar polvilhado de ternura deitado ao nosso sobrinho. Em cada sofreguidão de um beijo que deixou de ser só picante para ser também açucarado. Em cada momento cru que temos quando olhamos para nós próprios no espelho.
terça-feira, novembro 09, 2010
sábado, outubro 23, 2010
Empanada argentina

sábado, outubro 16, 2010
Pão com mel

No maior dos silêncios, mas com a maior das urgências, tira-se o pão do saco. O pote de mel abre-se com a ajuda das mãos trémulas. O miolo do pão entranha-se no mel demoradamente. Lambem-se os lábios. Lambem-se os dedos peganhentos. Contra o armário, as dentadas são ávidas, numa corrida contra o tempo. Ninguém pode ver. Ninguém pode saber. Mas no fim não há culpas. Nem sequer palavras. Limpam-se as migalhas para não deixar vestígios. Apenas o cheiro poderia denunciar a cedência à gula.
Horas depois percebo que não havia necessidade daquela refeição secreta. Mas foi isso mesmo que a tornou tão saborosa. Digna dos melhores menus.
sexta-feira, outubro 15, 2010
Conversas na cozinha catariana (parte II)
Eu: Muitas vezes, sim.
Ele: E não tem medo?
Eu: Já não. É algo que se aprende com o tempo.
Ele: Então e o seu marido, porque não vem consigo?
Eu: Não tenho. Em Portugal casamo-nos tarde.
Ele: (silêncio)
Eu: (silêncio)
Ele: Senhora, espero sinceramente que um dia encontre um homem à altura de todas as suas viagens.
("Também eu, Argie. Também eu", pensei sem abrir a boca). No mundo gastronómico, há pessoas que não precisam conhecer-nos há muito tempo para conseguir interpretar um suspiro ou uma meia palavra, que esconde tantas outras por trás. Há quem nos oiça sem termos de falar. Quem nos veja totalmente, sem ter olhado para nós mais do que cinco minutos. E isso sabe bem.
terça-feira, outubro 12, 2010
Conversas na cozinha catariana (parte 1)
quinta-feira, outubro 07, 2010
Pastel de massa tenra
segunda-feira, setembro 13, 2010
Bolo das 27 camadas
Este 'e o tipo de bolo que levo 'a mesa quando eu propria menos espero. E tem sempre um gostinho especial. Talvez porque nunca estou 'a espera de o cozinhar. Chamemos-lhe o bolo da sorte.
Sao poucos os que conhecem esta receita ja antiga, escrita algures num caderninho perdido no bau das minhas recordacoes gastronomicas. Mas os que tiveram a oportunidade de a ler, sabem que o gosto de um assento numero 27 no aviao que me trouxe ate Buenos Aires vai ser algo que nao desaparecera tao depressa da minha boca.
quarta-feira, setembro 08, 2010
domingo, setembro 05, 2010
Fome

domingo, agosto 29, 2010
Refresco de mar
quinta-feira, agosto 26, 2010
Salgados
Troco receitas com chefs do outro lado do oceano e vou decidindo, especiaria após especiaria, que menu tentarei degustar. Não há grandes planos. Apenas vontade. E uma escolha feita já à partida:
Sal. Do que faz arder os olhos. Do que corta a pele. Do que em excesso nos provoca tonturas. Do que nos faz ter de respirar fundo. Em preparações entre os tachos, decido que, mesmo não indo para lá do sensato, os salgados serão parte obrigatória da jornada gastronómica pelo sul.
sexta-feira, agosto 20, 2010
Sushi com wasabi derretido

Contudo, foi o factor wasabi que – como em tantas outras vezes – me arrebatou continuamente, enredando-me nas algas que, volta não volta, me foram tirando do sério. Não gosto de me enganar nas receitas, portanto limitei-me a ver o seu lado cru e picante. Até que um dia o wasabi derreteu por entres os paus e usou a palavra amor. Abri a boca, que a única coisa que foi capaz de dizer foi um sorriso. Com as voltas trocadas, reli a receita, em todas as suas entrelinhas, e percebi que às vezes é preciso isto para (voltarmos a) acreditar.
sábado, agosto 14, 2010
Café de filtro

Nesse dia chego à cozinha muito antes de qualquer chef de letras gourmet. Cumprimento-as com um bom dia e um sorriso. Dou-lhes uma pitada de música alta, enquanto ambas nos dedicamos aos nossos diferentes refogados. Um dia convidam-me para partilhar com elas o café. Rostos que tantas vezes passam simplesmente despercebidos a quem partilha a cozinha de letras comigo. Aceito, com prazer, entrar no seu mundo... num momento de cozinha de fusão. E foi-se tornando um hábito.
Sem filtros, explicamos umas às outras as nossas profissões. Enquanto bebo o café da cor delas, não posso deixar de as admirar pelas suas histórias repletas de sacrifício e coragem. Mulheres que se desdobram na vida, sem que ninguém lhes bata palmas no fim. A conversa é sempre rápida, no início tímida, mas por fim de uma sinceridade comovente. São dez minutos que me fazem sempre pensar. Que me fazem perceber que um sorriso quebra barreiras com muita facilidade. E que são os pequenos gestos que nos enchem a alma.
segunda-feira, agosto 09, 2010
Figos
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"
E no chão, percebo que não é este figo apodrecido que quero ser.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Gelatina

terça-feira, agosto 03, 2010
Comida de hospital (emocional)
segunda-feira, agosto 02, 2010
Pão com manteiga
segunda-feira, julho 26, 2010
Açorda de alhada
Entre soluções de coentros picados à pressão e temperos com sal a mais, não recuo. Visto o avental que não é o meu, abro o tacho, vejo que sabor positivo ainda consigo dar às alhadas e componho o prato final sem que ninguém dê conta. Como sempre.
sexta-feira, julho 23, 2010
Alteração no menu
sexta-feira, julho 16, 2010
Tapas
quinta-feira, julho 15, 2010
Meloa com presunto
"Adoro-as". Com aquele sorriso cru, pesou-as com a mão e repetiu: "Adora-as". Por cada talhada de meloa que ele sofregamente cortava, eu respondia com incursões às fatias de presunto ainda mal curado de outras refeições pesadas... Por vezes surpreendemo-nos com os sabores mais simples que se tornam em verdadeiros pratos gourmet. Um em cima do outro, nunca a meloa com presunto soube tão bem.
domingo, julho 11, 2010
Sumo de limão

sábado, julho 10, 2010
Sopa de letras
Não gosto da palavra adeus. Opto por um "até já" quando sei(!) que vou ter saudades. E se até isso me custar a dizer, substituo quaisquer letras por um sorriso sincero. O mesmo que estará cá no dia do regresso.

PS - É com orgulho que cozinho este post.
quinta-feira, julho 01, 2010
Pêssego sem calda

Mas o pêssego troca-nos as voltas quase sempre. Podemos sentir a ternura do seu lado mais macio, descascar-lhe essa pele aos poucos e ter uma verdadeira noção do seu aroma. Podemos sentir o seu sumo a escorrer-nos pela boca vezes sem fim, parti-lo em pedacinhos pequenos para descobrir todas as nuances da sua cor. Ele dá-se às nossas mãos. À nossa faca, que descasca as suas verdades eternamente escondidas do resto do pomar. Mas o que é certo é que podemos passar 100 dias a cozinhá-lo, 100 noites a come-lo, e na realidade nunca chegamos a conhecer o sabor do interior do seu caroço. Não sei se vai ser sempre assim, mas eu continuo a vaguear no pomar com o mesmo encantamento... e sem pressa.
domingo, junho 27, 2010
Sandes de salpicão

Abre-se o pão com a mão até se sentir o miolo a dar de si entre os dedos. Não se perde tempo a barrar manteiga. Sente-se o estômago a falar mais alto. A saliva, essa começa a acumular-se na boca. Arranca-se o salpicão da embalagem. Sem qualquer toque gourmet enfia-se dentro da carcaça. Com pele. Os sabores da carne sabem melhor assim em bruto.
Sem perder tempo a pensar se é o sítio certo ou não para matar a fome, devora-se a sandes. Com pressa, com urgência de a sentir em cada gota daquela saliva que anunciara a gula. Caem migalhas, faz-se demasiado barulho a mastigar... mas ninguém se preocupa. Porque no fim, sacudida a roupa e limpa a boca de qualquer vestígio de pão ou enchido, só mesmo o sorriso de quem se sente saciado poderá denunciar aquela refeição.
terça-feira, junho 22, 2010
Farinha Branca de Neve
A farinha Branca de Neve faz parte dos pratos mais insuspeitos de sempre. Não é preciso muita. Mas entranha-se. Faz incorporar os restantes ingredientes, dando-lhes uma consistência aparentemente forte mas que se desfaz quando, ao fim de umas horas, as fatias começam a ser cortadas pelo cansaço. Seja como for, ninguém pode dedicar uma vida à culinária da vida sem a usar uma vez que seja nos seus petiscos mais arriscados.
Entre os sabores da verdade mais apurados pela Branca de Neve, partilham-se visões gastronómicas que nos deixam a boca seca. Numa rapidez desconhecida na cozinha, revejo-me em cada um dos olhares na minha mesa. São como migalhas: juntas tornam a minha fatia de bolo mais consistente. E sem qualquer recheio dizem-me que só eu é que ainda não percebi que há muito que deixei de ser isto para me tornar num dos sabores que eu julgava secreto no meu menu. Este:
sexta-feira, junho 18, 2010

quarta-feira, junho 16, 2010
Cabernet Sauvignon
Não foi a primeira vez que, na sua consistência encorpada e de coloração intensa – tantas vezes apurada em tons de frutos vermelhos –, o Cabernet Sauvignon foi levado à boca com esta dúvida pelo meio. Entre períodos passados em cubas do mais frio inox e envelhecido por cascos de carvalho que lhe esgotam a sua textura natural, também já perdeu a noção de que idade realmente terá. Quando o tentam conhecer a fundo, há quem diga que tem um aroma complexo. Sem saber se isso é bom ou mau, ele acha que é apenas um vinho simples. Sem idade.
segunda-feira, junho 14, 2010
Chá de menta
O segredo do chá de menta é deitar uma primeira vez no copo e voltar a pô-lo dentro do bule. À segunda vez sabe sempre melhor, dizem eles. Talvez por isso tenha voltado.
Ligo o lume. Ponho ansiosamente o bule com a menta na chama, desejosa de começar a ouvir a água a fervilhar lá dentro. Bum, brum, bum, bruum, buuum… tal como um coração descompassado, assim ferve Marrakech nos meus ouvidos. Fecho os olhos como da primeira vez. Sinto-lhe o inconfundível cheiro. Junto-lhe um disforme cubo do açúcar mais doce, do tamanho dos braços que se abrem para me receber. Sorrio àquele tom escuro a que me habituei sem ter dado conta. Há ingredientes que não se esquecem.
Encho o meu pequeno copo com o braço erguido, conforme a tradição. As pingas salpicam-me a pele suada enquanto oiço os risos de quem confessa prazer em ver-me entrar nos rituais marroquinos. Páro para ver as cores. Aquelas cores. As pessoas passam e eu observo-as hipnotizada. Há crianças que riem. Há outras que mendigam. Há encantadores de serpentes. Há vendedores aldrabões. Há mulheres tapadas. Há homens que discutem. Há tristeza. Há alegria. Há agitação. Há vida.
Calo-me e sinto aquela paz fresca da menta. Foi como regressar a casa.
sábado, junho 12, 2010
Prato principal

sexta-feira, maio 28, 2010
Café com leite

quarta-feira, maio 26, 2010
Degustação de memórias
Falámos sobre a vida. Sobre o passado, o presente e o futuro. Dos rostos que ambos conhecemos e daqueles que cujas apresentações ficaram ao cargo dos astros. Rimos, como fizéramos em Bali. Ouvi novamente os seus conselhos. Fiquei a pensar neles durante os minutos de silêncio mútuo nas ruas de Alfama.
Há momentos que nos trazem à boca o sabor de muitas memórias. As melhores memórias. As que ficam guardadas no coração. E com elas o rio corre, tranquilo. Mesmo que a velocidade seja muita.
quarta-feira, maio 12, 2010
Gelado de requeijão com marmelada
terça-feira, maio 11, 2010
English breakfast

Levanto-me. Continuo a preferir uma meia de leite e um pão com manteiga.
Simples. (Como eu).
segunda-feira, maio 10, 2010
(...)
Quantas vezes podemos sentir-nos desiludidos na culinária da vida? Quantas vezes nos podemos surpreender a sorrir? Quantas vezes podemos acreditar em algum sabor? E quantas vezes podemos ter de assumir que, afinal, estávamos errados?
Na cozinha, resisto-lhes. Desacredito na minha capacidade de (ainda) sentir o baque do ingrediente inesperado. Como se houvesse uma total imunidade à alegria e à tristeza súbitas. Mas quando menos espero: saboreio-as. Em dose dupla. Vindas de diferentes frascos presentes na minha prateleira das especiarias diárias. Surpresas que fazem sorrir, desilusões que me tiram a vontade. Certezas transformadas em incertezas. Incertezas transformadas em certezas. Calo-me. Perguntam-me o que tenho. Calo-me. Decido desligar o fogão e não cozinhar. Pelo menos hoje. Amanhã, logo se vê.
quarta-feira, maio 05, 2010
quarta-feira, abril 28, 2010
Sorvete tentação

terça-feira, abril 20, 2010
Toucinho do céu
sábado, abril 17, 2010
Pêra bebeda

Descasca-se lentamente, em provocação à urgência do apito do forno que indica que a temperatura ultrapassou o limite. Num movimento preciso, tiram-lhe o caroço como quem lhe tira a alma. Sai inteiro, como tantas vezes ela saiu da fruteira, mesmo quando amolgada por fruta vizinha. Rebola no tabuleiro. Pára. Não deixa que nenhum pau de canela entre nela. Não quer que esse aroma se entranhe. Não quer ser invadida por qualquer corpo estranho à sua composição fresca.
No forno a chama, essa permanece acesa. Mas no tabuleiro a pêra mantém-se firme, sem baloiçar na sua postura arredondada. Está bebeda, mas não embrigada. A sobremesa não está à livre disposição no menu.
terça-feira, abril 13, 2010
Sobremesa de Beijinhos
Lembro-me de ter escrito sobre os bolos “beijinhos” há muito tempo. Julgo que na altura andava a praticar a receita. Hoje, pela data, lembrei-me de os voltar a pôr no menu.
São doces, disso não há dúvida. Por vezes têm recheio e a língua fica com o seu sabor durante muito tempo. Dependendo da ocasião, poderão ser pequenos ou grandes. Por vezes ficam esquecidos no fundo do armário. Mas também acontece termos esgotado a caixa e mesmo assim não ficarmos saciados. Há quem os compre, há quem os dê. Eu gosto de cozinhá-los. Sem pressas. Mesmo que o lume esteja bem alto.
(from the secret jukebox... and calendar)
quinta-feira, abril 08, 2010
domingo, abril 04, 2010
Sal e pimenta
quarta-feira, março 31, 2010
Temp(er)o
Há uns tempos, um grande amigo disse-me “Paulinha, as pessoas esquecem-se frequentemente do privilégio que é ter tempo”. Tinha acabado de chegar de uma volta ao mundo, entre pratos de todas as cores e sabores. No meio de frigideiras com restos eternamente colados e pedidos que nunca terminam de chegar ao balcão da minha cozinha, oiço o tic-tac também constantemente contra mim. Ele voa, eu não o vejo passar. Não é que tenha aumentado o ritmo, apenas se mantém ano após ano. E assim ganha velocidade sobre a minha capacidade de resposta.
Aproveito o “tempo” o melhor que posso quando saio das obrigações diárias. Deixo as outras em banho-maria porque estou cansada de as ter quando não são, realmente, minhas. Conduzo à noite rumo a casa com os olhos a teimarem fechar-se a qualquer minuto sem me darem poder de escolha. Ultimamente tem-me acontecido mais do que eu desejava. Durmo 13 horas seguidas pela segunda vez na mesma semana. Estarei esgotada? O corpo revela-me que sim. Mas é cá dentro que mais o sinto.
segunda-feira, março 29, 2010
Tortilhas

Cebola às rodelas com lágrimas escondidas. Batata consistente para conseguir enfrentar um mundo que um dia desaba, mas não pára. Chouriço picante de quem quer viver tudo o que pode. Ovos que envolvem eternamente todos os ingredientes à sua volta. Depois de frita, por vezes até queimar, a tortilha alimenta muitas bocas. Que reclamam, egoistamente, a sua possível ausência.
Há um dia em que a tortilha quer ser livre. Quer voar da frigideira para um qualquer outro prato longínquo. Começa como uma fuga. Mas termina por ser um processo de cozedura emocional, em que a tortilha percebe que não há refeições insubstituíveis no menu. Quando ela não estiver, haverá mais comida. Na verdade, a fome nunca baterá à porta.
Não há uma tortilha que seja igual à outra. Mas há algumas que inevitavelmente acabam por se cruzar no prato da vida. Podem nunca mais se voltar a ver, mas vão sempre lembrar-se desse encontro. Porque têm a mesma essência. O mesmo sabor… Estas coincidências eu já deixei de tentar perceber. Mas é bom quando inesperadamente alguém surge apenas para nos compreender num olhar.
terça-feira, março 23, 2010
Pastéis de poesia
Revela-me os seus pastéis secretos. A sua sensibilidade, que tantas vezes serviu de recheio aos que cantam noite adentro. Espanta-me que também ele tenha dois lados de uma só pessoa. Que consiga ser tão contraditório quanto eu nisto do coração. Desta vez não frito os pastéis. Deixo-os repousar na bancada porque o silêncio e um sorriso é (às vezes) a melhor poesia que podemos oferecer a alguém. No ouvido, ficou-me esta até adormecer:
sábado, março 20, 2010
Adoçante
Mas nem por isso deixa de saber sempre bem. Por um momento.
quarta-feira, março 17, 2010
Batata
segunda-feira, março 15, 2010
Espinafre
Há vegetais que entram na nossa cozinha sem querer e que a culinária da vida se encarrega de manter no nosso caminho repetidamente, tornando-os em presenças habituais no menu. Criam-se laços, geram-se sentimentos de protecção e carinho que nem mesmo o tempero mais avinagrado consegue estragar. Talvez por isso, quando de manhã me dizem em tom grave "o 'espinafre' teve um acidente" sinto-me a desfalecer durante uma fracção de segundo que parece durar uma eternidade. Mantenho o meu ar mais sereno (como é hábito), mas só sossego a minha couve coração quando oiço uma voz de sempre garantir-me que o espinafre continua rijo, embora de molho à espera de ir à faca.
Salteio-o de palavras positivas e piadas parvas. Tenho a certeza que a força que lhe é característica (talvez para muitos desconhecida) não vai faltar. Agora, em casa, suspiro finalmente. Já não foi uma estreia nossa de sorrisos doridos entre as paredes brancas. Mas sabe sempre demasiado amargo, como se fosse a primeira vez.
domingo, março 14, 2010
Travessia de claras em castelos
Batemos os castelos para eles se desfazerem a seguir. Mas insistimos em voltar a ergue-los. Porquê? Talvez porque aqueles pequenos momentos fugazes nos fazem roçar aquilo que julgamos ser a felicidade. A memória faz o resto. Vale a pena? Ainda não percebi. Mas acredito que sim. Nem tudo tem de ser percebido.
Continuo a bater porque desisitir não faz parte das coisas que me estão permitidas. Mudo de mão. Troco o garfo por um batedor de claras. Mantenho apenas a essência da receita: uma pitada de mim. Por mais vezes que mude e escolha novas formas de chegar aos meus castelos, eu sou o único ingrediente que nunca me irá faltar. Por mais longa que seja a travessia:
quinta-feira, março 11, 2010
Aguardente velha

Só quando chego ao carro é que consigo chegar a uma conclusão: era o miúdo do andar de cima. O mesmo que, ano após ano, ouvi a sair para a escola aos saltos pela escada fora. Cresceu. Está um homem. Será que também eu estarei diferente aos olhos dele?
Penso nos últimos anos e percebo que voaram. Há um ritmo alucinante que se mantém na minha vida, sem que eu consiga carregar no botão pause. Como se a minha necessidade de sugar cada minuto me envolvesse num carrossel demasiado acelerado que me deixa tonta, mas nunca enjoada.
Entro na cozinha e olho para a prateleira onde guardo a aguardente. Transparente, forte, simples… cada vez mais envelhecida, mas consequentemente mais intensa. Tal como eu. Não é bom, nem mau. É. Não tem a ver com a idade, tem a ver com o que se vive. Com o tempo e a falta dele. Já um dia escrevi isto aqui na cozinha e hoje volto a sentir o mesmo: a vida não pára. E eu também não.
terça-feira, março 09, 2010
domingo, março 07, 2010
Caramelo
sexta-feira, março 05, 2010
Tempero recuperado
quarta-feira, março 03, 2010
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Maçã
Aproxima-a da sua cara. Ela sente a barba rija do queixo dele ao de leve. Ele dá-lhe uma primeira dentada. Tímida. Calma. Como se estivesse só a tentar perceber o seu sabor. Segue-se outra mais forte. Com ritmo, mas elegância. Mais uma. E ainda outra. Os dentes enterram-se com força e deslizam devagar… até tocarem uns nos outros novamente. E recomeça outra vez.
O sumo desliza pela boca dele. Ela sente-se cada vez mais possuída. Como se cada dentada que sofre a fizesse perder a noção do tempo e do espaço. Deixa de ser verde ou vermelha, reineta ou bravo esmolfe. É apenas uma maçã. Apaixonada por aquele acto de entrega mútua. Com sabor a proibido.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010
Nouvelle cuisine

quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Pipocas doces
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Raivas

Abro um círculo no meio da farinha fina, como uma vala comum para todos os ingredientes desta sobremesa. Atiro-os com fúria: restos de manteiga derretida, de ovos moles e de açúcar em tons de amarelo. Caem salpicos no chão. Não quero saber.
Arregaço as mangas, respiro fundo e começo a misturar tudo. Primeiro devagar, como se ainda tivesse dúvidas. Depois com força, que se transforma numa violência desconhecida. Agarro a massa à mão cheia e vejo-a a escorrer-me entre os dedos. Puxo. Estico. Esmurro. Sinto os braços doer. O suor surge-me na testa, mas já não quero parar. Agrido aquele bolo cru como se limpasse a alma. Será?
Paro. Olho para aquela raiva gigante, que nunca poderia ficar bem cozida, e decido ser prática. Divido a massa em tiras finas, fazendo um pequeno rolinho com cada uma das recordações que tenciono levar ao lume. Pior: entrelaço-as, para que nenhuma esqueça o gosto amargo da outra. Este esforço minucioso cansa-me. Sinto-me tão cansada. Distribuo as raivas num tabuleiro negro e levo-as ao forno, em temperatura máxima. Hão-de endurecer.
Enquanto os meus olhos secos olham pela janela, por momentos penso que afinal as raivas não fazem sentido numa cozinha como a minha. Não, outra vez. Sinto a ânsia no peito e procuro alguma cobertura milagrosa que as componha no fim da cozedura. Reviro as prateleiras mas não consigo encontrar qualquer réstia de chocolate para derreter. O frasco do mel rola, vazio, pela bancada. Em desespero agarro no pote do açúcar para polvilhar. O cansaço faz com que as mãos tremam e deixo-o cair. Parte-se em mil cacos. No ar desvanece-se a poeira doce, para não mais voltar. Baixo os olhos e desisto.
Apita o alarme do forno e lá estão elas: raivas duras, triunfantes. Ponho as mãos na anca sem saber o que fazer. Não gosto deste tipo de sobremesas no meu menu. Atiro-as para dentro de um saco. Fecho-o. Dou um nó. Outro. Atiro-as para o armário mais alto de todos, onde dificilmente conseguirei chegar. Mas sabendo que consigo, se assim quiser.
Aproximo-me do forno mas o calor já desapareceu. Sento-me no chão de pedra gelada e apercebo-me de como a cozinha ficou fria. Simplesmente fria.
Nem o calor das raivas sobrou.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
Palavras gourmet
Elogio ao amor
“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
Miguel Esteves Cardoso
terça-feira, janeiro 12, 2010
Carne no forno

Salteia-se com malaguetas picadas e gengibre esmagado sem dó, contra a parede. Está frio e as janelas da cozinha embaciam. Talvez tenham sido sabores picantes a mais, mas o gosto é inconfundível. A mistura de cheiros faz com os olhos se fechem e a boca fique seca. A cabeça anda à roda, inundada pela intensidade do prazer anunciado de que o fim está a chegar. Silêncio. Ouve-se, após uma eternidade, o tic-tac do relógio da parede. No chão continuam os frascos caídos, com especiarias por abrir e recordações de outros temperos. Deixa-se marinar durante cinco minutos até recuperar o fôlego e ter força para meter o tabuleiro no forno. Está frio, mais uma vez. Mas a carne só quer ficar no quente até ouvir o apito, em sinal de que a confecção acabou. Sai sem ficar queimada. E, com o seu melhor ar, volta à mesa onde todos estão habituados a vê-la.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Feijão e arroz

Lado a lado partilham o prato, sabendo que nunca poderão vir a ser cozinhados dentro do mesmo tacho. Ainda assim, o arroz não gosta quando o feijão fica frio. Mas esforça-se, com cada vez menos goma, por perceber que nem sempre a travessa consegue aquecer da mesma forma as suas composições distintas. Dentro da igualdade, são diferentes. E disso, já nenhum dos dois se esquece.
Por motivos diferentes e iguais, ambos conhecem a panela de pressão. O som do apito e a força do vapor, que queima até ao mais fundo que pode haver, nunca sairão das suas consistências. E esta ligação, de quem se queimou e mesmo assim permanece com ar intacto, poucos poderão algum dia perceber. Embora o feijão tenha receio de afogar o arroz no seu caldo negro, o arroz gosta de se deixar envolver… porque sabe que (ainda) não está na hora de perder o seu lado branco, mais imaculado.
Pela mesa passam espetos com salsichas e entremeadas, bem passadas, mal passadas, mas incapazes de entender porque o feijão e o arroz continuam a sorrir discretamente um ao outro, quando já deviam ter esgotado a sua capacidade de(se) partilharem. Embora juntos desfrutem do sabor da carne na travessa vezes sem conta, ambos sabem que não vão limitar a entrada de bananas fritas e couves mineiras no menu. A vida é um rodízio demasiado grande e nenhum quer abdicar da sua enorme variedade. Mas, onde quer que estejam, vão ser sempre o feijão e o arroz. Lado a lado. Mesmo que cozinhados em bicos distantes no fogão.
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Açorda de satisfação
Gosto de desligar a luz da cozinha com esta sensação de satisfação. De sorrir perante a possibilidade de contar o mundo e ter uma vontade imensa de o fazer... como há muito não tinha. De perceber que as minhas palavras e atitudes ainda são verdadeiramente compreendidas por alguns. Sabe-me bem sentar-me à mesa para comer a açorda e, em vez de um jantar à partida distante, acabar a saborear sem faca e garfo o outro lado de mim. Gosto de perceber que as portas estão abertas. Agora e amanhã. De sentir no corpo o cansaço extremo e mesmo assim não conseguir dormir. De percorrer as ruas escuras da cidade sozinha. Na penumbra de quem hoje já não quer ser vista. Gosto de desligar o carro e ficar sentada uns minutos para deixar terminar a música que o meu rádio - que concluo ter vida própria - insiste em fazer-me ouvir. Como um género de coentros (congelados) no topo da açorda, de que me tinha esquecido sem sequer dar conta. Hoje foi assim:
sábado, janeiro 02, 2010
Lotes de Café
Ela entra o ano a olhar para a caixa. Sem saber muito bem se lhe apetece sorrir, cantarola alto enquanto mexe o corpo involuntariamente: “tenho dores fechadas em caixinhas, contra mim contra ti, contra láááá...”. Dores em todos os seus lotes de café. Os mesmo que lhe dão vida, dia após dia. Os mesmos que a tornam única na sua complicada maneira de ser. Chega a essa conclusão enquanto caminha com o frio a bater-lhe na cara. Muitos alguéns já lhe tinham dito isto. Naquela noite ouviu-o outra vez. Na manhã seguinte, ouviu-o outra vez. E, enquanto bebia um café, compreendeu. Finalmente compreendeu. E sorriu.